Wednesday, March 19, 2014

Dia do pai


Tenho de admitir, sempre fui a menina da mamã e não do papá. Não é uma questão de preferência, mas sim de feitios. Eu sempre combinei mais com a minha mãe, o meu pai com a minha irmã. Não sei bem porquê, temos ambas muita coisa dos dois, mas calhou assim. E sempre aceitámos bem tudo isto. Até que comecei a pensar o que queria dizer neste dia que não envolvesse falar também da minha mãe. Sim, perdê-la foi um golpe demasiado duro para todos, e para ele foi especialmente custoso após vários meses a cuidar dela e a viver o cancro dela intensamente. Mas acho que não era sobre isso que queria falar neste dia. Queria lembrar algo nosso, meu e dele, o que foi difícil, não que não tenha boas recordações, mas normalmente essas envolvem mais pessoas da família. Até que me recordei de uma coisa que era mesmo só nossa: ler as Lições do Tonecas na cama. O meu pai nunca gostou de ler, e para ser sincera, não tenho sequer grandes recordações de outros a ler para mim (ler sempre foi um processo muito íntimo e sempre gostei de o fazer no sossego da minha solidão), mas não sei porquê, um dia ele encenou uma das lições do Tonecas antes de eu ir dormir e quando dei por mim, era uma tradição nossa. O meu pai tinha jeito para este livro, fazia a voz mais cómica do menino Tonecas e ríamos os dois até nos doer a barriga. E é um momento só nosso que quis captar e recordar para sempre. Que isto de ser menina da mamã não me impede de também ser (uma das) menina(s) do meu pai.
Feliz dia a todos os pais!

I have to admit, I always was the "mummy's girl" more than my father's. It's not a question of playing favorites, it's a manner of personality. I have always combined better with my mum's and my sister with my father's. Not sure why it turned out this way, it just happened like that. And it was okay. So I started thinking what I could tell about my father that wouldn't involve talking about my mother. Losing her was hard for everyone of us, specially for him after taking care of her through her cancer. But that wasn't what I wanted to talk about today. I wanted to remember something about me and him, which was hard, I admit. Not that I don't have good memories, but somehow there's someone else involved. And then I remembered when he read to me "Lições do Tonecas" book (it was a comic radio program back in the 30's/40's about a really dumb boy trying to learn his lessons at school) before I went to bed. My father doesn't like to read, and to be honest, I don't like people reading to me, it was always a very lonely and intimate process, but once he started reading and mimicking the dialogues it became a tradition. Our tradition. He was so funny reading Tonecas' part and we both laughed out loud 'till our stomach ached. And that was our moment, that  wanted to capture and remember. 
Happy father's day!

6 comments:

Lúcia said...

Ahah! As lições do Tonecas! Mítico!
Gosto imenso da ilustração.
Feliz dia do pai! :)
(Vem aí a primavera!!!)

Lazy Cat said...

Que delícia =) E adoro os tons quentes, em jeito de memória acarinhada e colorida pelo tempo.

Analog Girl said...

Lúcia, fico feliz por alguém conhecer a origem das lições do Tonecas. Quando digo que lia (e leio) o livro a reacção é sempre "aquele programa manhoso?". Ah... não, as originais, os diálogos da rádio, transformados em livro...?
E ninguém sabe. Mas é parte da minha infância e é um clássico! :)

Lazy, as cores estavam quase quentes demais, tive de substituir a imagem... :P

Para ser honesta não estou particularmente fã desta ilustração, acho que poderia ter desenvolvido mais ou de outra maneira, mas talvez volte a pegar nela para fazer outra abordagem.

Obrigada meninas!

Ana Burmester Baptista said...

Não há como as Lições do Tonecas! Não "o programa manhoso" de que também me lembro, mas do livro que tenho de comprar para o meu filho ler logo que as hormonas sosseguem... É que apesar de antigo ainda lhe pode dar belas ideias que não gostava de ver repetidas!!

Analog Girl said...

Ahahahahahah! Ah pois Ana, não vá o diabo tecê-las! :)

Quotidianos de seda said...

E eu ontem senti (sinto todos os dias) tanto a falta do meu, que partiu (do mesmo modo que a tua mãe).
Que a vida dê a todos um tão bom como o meu foi (continua a ser) para mim.

Beijinhos