Monday, June 11, 2012

Casa maldita


De manhã dispo-me sem preocupações ou preconceitos. O andar é alto, o terreno em frente, desabitado, ao longe os carros não me vêm  para além da luz reflectida no vidro. Por isso solto a toalha e esfrego energicamente o cabelo, deixando tudo o resto em exposição.
Olho para a tua casa, em pedaços, os restos carbonizados das vigas no tecto são visíveis a vários metros de distância. Demoro o olhar naquele bocado de telhado ainda intacto, as telhas laranjas e sujas sobre o frontão da casa, convidando os visitantes a entrar. Conto as janelas, as portadas entreabertas largadas ao abandono. Numa delas um ramo entra indiscriminadamente sem pudor. As janelas abaixo ainda têm vidraças, poucas e partidas, nas portadas de madeira branca, firmemente fechadas. E é ali, na terceira janela, junto à esquina do pomar que me detenho, gelada. Espero sempre um vislumbre do teu olhar, desse olhar que sinto cravado em mim, na minha pela nua, enquanto a tua guardará para a eternidade as cicatrizes desse fogo que te colheu.
Espero-te, mas nunca te vejo.
Por vezes parece-me avistar uma leve sombra branca, transparente como consta que um fantasma deve ser, mas sei que não passa de sugestão do meu cérebro fantasioso.
Estarás mesmo aí? Ficaste presa a essa casa, que queimaste juntamente com a tua vida, o teu futuro, a tua juventude? O arrepio que me percorre a espinha é mais profundo que o frio. Já estou agasalhada e mal dou por isso. Nunca sei, nunca percebo. Os meus olhos são conduzidos para a tua janela e nunca estás lá. E o meu corpo cobre-se, para evitar a inveja da tua alma, do teu fantasma amaldiçoado.
Volto costas e retomo à realidade. O pequeno-almoço, as coisas a levar ao trabalho, e esqueço-te por mais algumas horas, até chegar, preguiçar alegremente pelo quarto de vestir e procurar-te, uma vez mais naquela que sei que é a tua janela. Aquela de onde me olhas.
Um dia talvez te veja. Um dia talvez te esqueça.

Wednesday, June 6, 2012

Blog, interrupted

E desafio também. Maio provou ser intenso demais, complicado demais, especialmente a segunda metade do mês. Por isso deixei este desafio por terminar. Olho para os temas e ainda me apetece pegar neles novamente, mas não sei se faz sentido. Talvez volte a fotografar os temas, talvez não. Apetece-me muito actualizar mias vezes este blog, ter de que falar e ter uma actividade criativa quase diariamente.
Talvez consiga. 
Hoje apetece-me publicar aqui mais uma história que escrevi há pouco tempo.
Me aguardem.

Dia 20 - passeio

Olha, tinha este post por publicar e esqueci-me... Este é muitas vezes o meu passeio à hora de almoço. Perdida ali nos prédios altos há relva e um jardim onde passam crianças barulhentas. eu ignoro-os e tento ler. Não fosse a falta de civismo e haverem cocós de cão espalhados por todo o lado eu estendia-me na relva...