Mostrar mensagens com a etiqueta pensamentos soltos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta pensamentos soltos. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Reflexões de fim-de-ano (parte 1?)

 Tenho tido alguma dificuldade em voltar aqui e escrever. Este blog não foi o meu blog mais profícuo mas ainda assim anos houve em que escrevia muito, longos posts, apostava nas imagens e tinha algum cuidado na escrita e algures perdi essa vontade. Nas redes sociais estou a sofrer do mesmo desgaste. Não sei se é de sentir que este blog perdeu algures a sua essência, se é do design que ainda não me satisfaz (um designer é sempre o seu pior cliente - e na verdade, sempre que projectei melhorias visuais no blog ficava pela metade), ou se o facto de trabalhar em conteúdos e redes me faz esgotar a minha veia criativa nas minhas coisas. E sinto-me um pouco triste por isso. Gostava de conseguir apostar em conteúdo mais curado e visualmente mais atrativo neste blog, não quero desistir dele e na verdade escrevo tantos posts mentais e tenho várias ideias, apenas me falta vontade de me organizar e o hábito de voltar aqui a escrever.

Em compensação, no mundo offline as coisas estão um pouco mais ricas. Tenho-me permitido parar e reflectir um pouco sobre tudo e sobre nada, suspendi deliberadamente os livros todos que tinha em aberto, um pequeno exemplo de como as coisas que costumava adorar não me estavam a trazer alegria. Não foi só do esgotamento físico e emocional, acho que me sobrecarreguei e quando me permiti parar, comecei a desfiar a sequência de pensamentos e ações que me trouxe aqui, ao final de um ano complicado, e de 3 anos de longa luta interna. 

E quis muito guardar mais conhecimento, alimentar a mente, e isso também me esgotou. Ler deixou de ser apenas prazer, também era ganhar conhecimento, estudar, elaborar, explorar. Acumulo cursos online que não vejo nem ponho em prática. Estou mesmo naquela situação tramada de "tanto para fazer, e tão pouco tempo para o fazer", que a certa altura desliguei. 

Menos é mais, também na nossa vida, não só no design. E percebi que eu tenho uma tendência aguda de acumular coisas. Livros, ideias, artigos de papelaria, aguarelas, papéis, ebooks, recursos gráficos que nunca preciso... You name it! Para além de que a casa não é só minha e também tenho outros pequenos acumuladores por aqui. Tudo está a rebentar pelas costuras. 

Então parei. Desliguei. Parar de ler por uns tempos foi importante porque a leitura sempre tabelou a minha vida. Um livro é um bom amigo não é? Mas até as boas amizades beneficiam de algum espaço. E tenho saudades, é um facto. Saudades de ler pelo prazer que traz, não por outros benefícios extra, ou para alimentar o ranking anual de livros que defino no goodreads (decisão para 2022, não vou estabelecer uma meta de leitura).

A vida digital, as apps para tudo e mais umas botas que deveriam ser úteis, tornam-se quase uma obrigação e deixamos de fazer as coisas pelo prazer de as fazer. Compramos, acumulamos, porque queremos ver, conhecer, explorar. Mas depois é demasiado. 

Estou a aprender a limpar a minha cabeça, a minha vida, as minhas estantes. Há tempos mudei as mobílias de lugar, e fiz planos para o quarto dos miúdos. Vai implicar uma boa escolha, e há meses que tenho sacos no meu carro de coisas para me desfazer porque já não cabiam na arrecadação. Percebi que está na hora de me livrar de algumas coisas que não têm interesse nenhum manter, mesmo que tenham sido significantes para a minha vida em algum ponto. Não quero continuar a carregar pesos. E isto tem sido válido para as coisas que acumulo, como para situações com que não me identifico.

Recentemente fechei um capítulo da minha vida. E penso com assombro como este capítulo se fecha agora, quando decido por fim a uma série de comportamentos, pensamentos e atitudes que não me fazem bem. Quando decido que em 2022 está na hora de deixar a vitimização de lado, e de começar a recuperar o gozo, a vontade e a determinação para levar a vida a outras paragens. Como diz a Catarina Beato, a vida resolve-se sozinha, e eu sem saber bem como, cheguei a um ponto em que consigo olhar para trás, e, mesmo com trabalho por fazer, começo a ver a aprendizagem que trouxe comigo neste caminho sinuoso. Daqui para a frente há uma nova fase da vida por viver. E estou grata por tudo isto. a

segunda-feira, 5 de julho de 2021

39

 Assentei os pés nos 39 anos sem grande vontade. Não costumo ser esta pessoa que não gosta de fazer anos e que se quer fechar do mundo um dia por ano. Eu sempre gostei de fazer anos e nunca me incomodou o envelhecimento. 

Mas nos últimos 2/3 anos tem sido difícil digerir o avanço da idade. O peso (muito) extra que teima em ficar, os cabelos brancos que já deixei de contar, acordar com dores no corpo só porque sim, um cansaço que avança no cérebro e me faz esquecer mais do que eu gostaria (ainda assim, mantenho uma orgulhosa memória de elefante). Talvez seja só a maternidade, que de facto mudou tudo e tornou os obstáculos da vida um pouco mais difíceis, assim como nos videojogos. Agora sinto que jogo no nível máximo de ansiedade e desconforto. Não creio que volte ao training mode. Mas também não sei se quereria. Há algo neste desafio que me faz ganhar mais garra e força do que antes e isso também me agrada.

Mas não é bem sobre isto que quero falar. Gostava de explicar a minha questão. Não tenho grandes problemas em envelhecer, durante vários anos da minha infância e adolescência até me senti muitas vezes como uma pessoa idosa num corpo jovem. Mas o peso do número 40 está a desequilibrar a balança. É que gostei mesmo MUITO da década dos 30 e não me apetece nada sair daqui. Tem sido uma década feliz, em que me tenho sentido uma power woman em tantos níveis. Talvez tenha medo de não saber mantê-lo na próxima década. Ou talvez, à luz da dificuldade que tive em ter entrevistas de trabalho e nem uma proposta sequer, tenho receio de não conseguir ganhar dinheiro para continuar a ser uma mulher independente. Eu sei que estou num projeto giro e inovador, sei que estou a fazer mais e melhor trabalho que alguma vez fiz na vida, mas inevitavelmente, perante tanta porta fechada fico preocupada. E claro, há ainda aquele medo da 'minha' startup não vingar e isto se desvanecer.

Isto talvez nos leve a questões pertinentes do quanto da nossa identidade é o valor que nos dão no trabalho. Vou ser sincera, sempre fui razoavelmente bem considerada no trabalho, mas nunca fui uma estrela ascendente a somar elogios e aumentos salariais. Eu sempre fui a pessoa sólida e confiável. E no geral sempre estive bem com isso, nunca aspirei a grandes coisas, na verdade, aspirei sempre mais à minha liberdade e ao meu espaço do que a ser uma workaholic. Mas sem dúvida que talvez confunda o valor do trabalho com o meu valor pessoal, ou não deixaria estas questões me afectarem tanto.

Fiz um exercício giro com a minha irmã, no dia dos meus anos. Em todas as décadas da minha vida consegui atingir sonhos e patamares a que aspirei. Até aos meus 10 anos pude ter uma irmã (temos quase 9 anos de diferença, pelo que foi um penoso processo de pedinchice aos meus pais), entre os 10 e os 20, pude escolher a área que queria estudar, fui para Artes e mantive-me determinada nessas escolhas, vivi em pleno uma adolescência feliz. Entre os 20 e os 30, comprei uma casa, saí de casa do meu pai, conquistei a independência. E nos 30... libertei-me de uma relação que já não funcionava, recomprei a minha casa, vivi sozinha, encontrei novamente o amor e tive um filho. Foi uma década épica, de força e de determinação.

Terei receio de não saber encontrar sonhos aos 40? De já ter atingido o meu pico? Ou de serem sonhos mais loucos e estratosféricos e tenho medo de brilhar? Ou então, numa nota terrivelmente obscura, a minha mãe morreu com 46 e essa proximidade das idades incomoda-me (não que ache que vou morrer aos 46 também, mas há um peso absurdo que fica e parece que fico em expectativa).

Não sei. Não sei, mas vou descobrindo devagar, aprofundar com calma. Hei-de perceber como manobrar este navio. Não preciso das respostas todas agora, preciso sim, de saber que isto também se resolve. E que este processo de desvendar e recuperar também pode ser épico e uma das minhas maiores forças. 

Portanto, parabéns a mim, e que os 40 sejam festejados em pleno. Para já, concedam-me esta pequena neura. 

terça-feira, 15 de junho de 2021

Ansiedade

 Há uns dias quebrei. Desatei a chorar numa tarefa qualquer mundana e um medo assolapado de que o meu filho me morresse encheu-me de uma angústia tremenda. Quando me tornei mãe percebi que carrego em mim todos os medos do mundo, a cada dia que passa sinto que tenho mais a perder porque, confere, passe o tempo que passar, o amor aumenta diariamente. Mas nunca tinha sentido esta angústia paralisante, dei por mim a chorar, a pedir ajuda a amigos e família, a exteriorizar este terrível medo que me comia as entranhas. Fui acalmando. Não controlo tudo na vida e certamente não sei o que o futuro reserva, mas viver assim não é opção. 

ansiedade pânico medo

Photo by Tonik on Unsplash


Não soube explicar a origem dessa dor, dessa angústia nervosa que me tomou de assalto. Continuo a não ter grandes luzes sobre o assunto. Apenas sei que ainda não me reequilibrei. Já tive um segundo episódio dias depois, e hoje, depois de uma manhã surpreendentemente calma e feliz ao entregar o Gonçalo na escola, dei por mim a chegar a casa e a sentir uma ansiedade a crescer no peito e um cansaço extremo ao mesmo tempo. Não estou aqui a rebolar na minha miséria, mas num assomo de consciência compreendo que isto ainda não acabou. 

Falamos tanto de saúde mental e de como andamos tomados de fadiga pandémica e de incerteza no futuro, e eu sinto-me o verdadeiro cliché deste discurso. E custa-me muito compreender e aceitar, mas se calhar está na altura de assumir que "eu não estou bem". Percebo que a morte do meu avô acordou algumas feridas que julgava estarem saradas, e 

Tomei uma série de atitudes e ando a delinear alguns planos: deixei de ouvir uma larga maioria de podcasts de crime, estava sempre a por-me no lugar dos intervenientes (todos), e a tomar as dores deles para mim. Tento não me encher de tarefas (o que é algo difícil na minha posição, mas tenho-me permitido abrandar um pouco sem lesar o trabalho, espero), procuro explorar uma paz inconsciente e tento meditar ou, no limite, parar um pouco para respirar fundo e estabelecer alguma paz.  Vou voltar a ficar sozinha em casa e quero voltar a fazer ioga ou qualquer outro exercício. Mas são planos que seguem com calma e ponderação, não quero piorar a achar que tenho de fazer mais e mais.

Por fim, faço por me rodear de inspiração (que me faça sentir bem e não uma fraude - todo um outro assunto para outro dia) e de palavras de força. Toda a ajuda conta na recuperação. Não estou nos meus dias mais produtivos, o futuro continua a construir-se e o mundo não abranda por nós, mas eu sei que tenho de olhar para mim e me dar algum sossego.

Porque partilho isto num blog que nem sei se ainda é lido sequer? Pois, não sei, só sei que partilhar ajuda. Sei que estas dores não são só minhas, e sei que a ansiedade tem dominado a vida de muita gente. Nunca me tinha sentido tão descontrolada, e imagino que como eu haja muitos. Só queria dizer que, se estás a passar por algo semelhante, não estás sozinh(e/o/a). E após escrever isto posso atestar que me sinto mais tranquila. Partilhar é vida mesmo, mes amigues.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Já não tenho avós

Esta semana começou como qualquer outra. Na verdade, bastante mais calma do que a semana anterior, pelo que estava a gozar o abrandamento do ritmo e levava a segunda feira com mais calma. Um dia falo-vos do projecto em que estou metida e a loucura que tem sido. 
O meu pai ligou-me depois do almoço e, ao melhor estilo de um bulldozer descarregou a notícia em mim "olha o avô morreu". Um baque. Um momento.
Falámos um pouco, por muito que esperemos, nunca estamos verdadeiramente à espera. O estado de saúde do meu avô podia descrever-se em números e mesmo assim não lhe definia a condição. O meu avô estava acamado há 5 anos, por causa de um AVC, venceu 2 cancros (tanto quanto sei), tinha Parkinson, estava há dois meses e tal no hospital, com uma pneumonia, apanhou COVID e mesmo assim conseguiu ser assintomático, apanhou uma bactéria hospitalar, perdeu sangue e recebeu transfusões. E foi-se aguentando, um magro e pálido exemplar do que já foi. Até já não dar para mais.

Outro número que posso acrescentar a esta equação é o facto de eu já não o ver há uns... 8 anos talvez? Não era propriamente uma zanga, não era ódio ou desprezo, apenas aceitação de que as pessoas da nossa família não são quem queremos e precisamos que sejam. E este meu avô partiu em desvantagem, porque o meu outro avô era o homem da minha vida. Por isso, depois de ter sido um personagem desestabilizador na harmonia da família, e ter armado confusões desnecessárias achei que era melhor manter-me afastada. Sem culpas nem mágoas. Apenas permitir que as nossas vidas seguissem os seus rumos.

Mas dói-me que ele tenha desaparecido. O meu avô foi mais amado do que talvez merecesse, tinha uma família grande, 3 filhos, 5 netos e 6 bisnetos. Teve uma mulher que o adorou a vida toda, mesmo depois de se ter separado dele. O amor de uma vida nem sempre é isento de dor, percebi isso com os meus avós. Não apostou nos filhos e castigou duramente quem não pensava como ele, quem não se encaixava no seu ideal. A linguagem de amor que conhecia eram palavras ríspidas e dinheiro, e no fim, quando perdeu tudo, sobrou-lhe o amor dos filhos e da mulher que infernizou a vida da minha avó (justiça seja feita, esteve sempre do lado dele, portanto talvez tenha sido amado por duas mulheres afinal).

Dói-me que a vida dele tenha sido assim, tão cheia de insegurança e conflito, de ideais antigos e mastigados que nem sei se ele verdadeiramente acreditava neles, que não tivesse sensibilidade para lidar com as pessoas. Dói-me que tenha sido um pai castrador, um avô autoritário e um marido negligente. Dói-me que não tenha visto a beleza e abundância da sua família e tudo o que ele fez contribuiu apenas para marcar conflitos e separar as pessoas. Mas ainda assim não nos separámos. Nem uns dos outros, nem dele. Dói imaginar que era preciso tão pouco para todos termos sido uma família mais feliz.
Dói que não tenha podido dizer-lhe que eu gostava dele e o perdoo. Mas espero que o saiba. 

E, numa nota mais egoísta, dói-me ter perdido todos os meus avós. Nos últimos 4 anos foram-se logo 3. Eu sei, doentes, envelhecidos, frágeis. A vida é mesmo assim, o envelhecimento é mesmo assim. Eu aceito a lei da vida. Mas dói-me esta perda, estas perdas, a solidão que deixam. Doeu-me esta última despedida. Um pouco da minha infância foi com ele. 

Somos as nossas histórias. As histórias dos outros com quem nos cruzamos. Ele leva um pouco da minha. Eu partilho um pouco da dele.
Até logo avô.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Aquele dia em que eu participei num podcast


Devo dizer-vos, eu adoro podcasts. Passo o dia a ouvi-los. Já quando ouvia mais rádio eu gostava mesmo era que me dessem conversa, e dei comigo muitas vezes a rir sozinha e a responder-lhes, presa no trânsito. Um mimo, como podem imaginar. 
Pois que eu comecei a ouvir podcasts graças a alguns pioneiros portugueses neste meio, e só depois tenho resvalado para os estrangeiros e só não subscrevo mais porque tenho uma quantidade gigante deles em stand-by. Tenho mesmo a sensação que estão a conversar comigo, sem falar na quantidade de coisas que tenho aprendido em entrevistas, comentários e esclarecimentos que muitos dão. É um meio riquíssimo e sem dúvida que tem acrescentado muito aos meus dias.

Isto para vos dizer que participei num podcast! Não foi assim daquelas coisas em que me convidam e querem falar comigo por ser eu, mas ouço o Arrepios com a Bilinha desde que apareceu, sou patrona no Patreon e gosto muito das temáticas que ela trata (sou aficcionada de terror e mistério e tudo de inexplicável), e como ela conta histórias a novos convidados todas as semanas, eu agitei desavergonhadamente o meu dedo no ar para gravar com ela e cá estou eu a conversar um pouco com a Raquel, que me contou uma história clássica de assombrações que merece a pena conhecer. 
Não estava nada nervosa, por incrível que pareça, mas de vez em quando acusava o cansaço e davam-me umas brancas ou divagava incessantemente, mas no geral foi uma experiência que adorei e quero repetir, seja com ela, seja com outros, seja criar o meu próprio podcast (?). 

Se gostam destes temas ou se simplesmente querem conhecer a minha voz, e o meu tagarelar incessante, by all means, ouçam o episódio! No fim, se quiserem ser muito queridos digam que eu até me safei bem mesmo que não tenha sido o caso.  

(e já que estamos no tema dos podcasts, alguém interessado em saber o que me entra pelos ouvidos? Ou com vontade de partilhar aquele mesmo imperdível? É um assunto que não me cansa de todo, adoraria saber o que pensam.)

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Respect

Ando a mastigar as ideias para compor este post há alguns dias e sinceramente nem sei se o vou conseguir publicar já ou se o vou construir com o tempo. É muito difícil falar de racismo, de por os conceitos na mesa, de esmiuçar os pontos de vista e tentar abranger a complexidade de tudo o que abarca. E sei que, longo ou curto, este post vai sempre ficar incompleto e que nunca conseguirei falar de tudo o que se atropela na minha mente, mas tenho de tentar. Porque tenho uma voz, tenho uma plataforma (por pequena que seja) e tenho muita vontade de aprender, de compreender e de viver esta questão que se impõe incomodamente nas nossas vidas. No fundo, como tudo na vida.

Não podemos simplesmente fechar os olhos, fingir que não existe, que não tem importância, que vai passar. A memória é curta, mas enquanto continuam a morrer pessoas, e outras a passar por elas com impunidade, e a sermos TODOS constantemente atropelados pela profunda injustiça, de tudo isto, não podemos ignorar. Vamos convidar este incómodo, vamos debater, discutir, argumentar e contra-argumentar para, no mínimo, alargarmos as nossas mentes e aprendermos em conjunto. E com este conhecimento fazermos parte de uma sociedade mais equilibrada e justa, porque somos nós, unidos, que a construimos.

Tenho aprendido algumas coisas, alguns conceitos que não questionava antes. O fenónemo "black face", o #blacklivesmatter (que não é de todo um contraponto ao #alllivesmatter), a reconhecer o meu privilégio branco, e o que é verdadeiramente a "normalidade". Há tantas facetas para uma mesma coisa, não podemos simplesmente fechar os olhos a outras realidades que não a nossa. Empatia, precisa-se.

Aprendi com as minhas lutas pessoais que o meu sofrimento é válido, mas não é isolado. E que as minhas lutas pessoais são isso mesmo, apenas. E todos temos as nossas, ninguém escapa. Por isso quando começo a pensar no quanto as minorias têm de lutar e de se esforçar para ganharem credibilidade e peso e voz e um lugar minimamente respeitável na sociedade, só sei que nada sei. 

Eu neste momento posso descansar, posso por as minhas batalhas em pausa e relaxar confortável que amanhã ou depois pego nelas. Mas há quem não possa parar de lutar, que não se pode dar ao luxo de baixar a guarda, de sossegar. Não sei o que é ser olhada de lado, despertar desconfiança, insegurança, apenas pela minha aparência. Não sei o que é ter pavor de ser acusada injustamente porque se estiver no lugar errado à hora errada ninguém me vai automaticamente culpar e julgar pela cor da minha pele. Não sei o que é ouvir comentários asquerosos e injustos e sentir que o não há lugar para mim na sociedade. E acima de tudo, não sei o que é temer pela própria vida quando saio de casa. 

É incerto por onde podemos começar, mas mesmo que dê passos pequenos, vou dá-los. É o meu compromisso daqui para a frente. Estar atenta, ouvir, aprender, partilhar. Nunca me considerei (nem tenho feitio) propriamente activista, mas sei que posso e quero ser activa. 

Há muita informação a circular e dar continuidade à discussão, não deixar o assunto morrer é responsabilidade de todos. É o mínimo que podemos fazer. 

Não me quero alongar muito mais,  provavelmente voltarei a este assunto com posts mais orientados e mais explícitos (assim o espero) mas queria deixar-vos uma sugestão para terminar.
Subscrevam a newsletter da Nicole Cardoza. Tem informação interessante e muitíssimo bem documentada. Leiam, e se puderem, contribuam.

E se querem falar mais, usar esta plataforma, debater seja o que for comigo, corrigir-me, por favor, façam-no. Tenho o e-mail, facebook, instagram, caixa de comentários aberta. 

Respect.

terça-feira, 31 de março de 2020

Las hay no hay?

Acabei de entregar o meu ipad a um estafeta para reparar o vidro que se estilhaçou alegremente ontem antes de me ir deitar. O meu filho usa-o com frequência, já o deixou cair mil vezes, sujou-o com tudo e mais alguma coisa, inclusive pisou-o sem dó nem piedade. Ontem, escapa-se-me das mãos num momento e pronto, adeus dinheiro (e que todos os males fossem esses, felizmente pude mandar reparar e os serviços mínimos vão sendo garantidos, coisa que muito me agrada).

Hoje de manhã, já tinha aceitado que teria de emagrecer as minhas poupanças porque o tablet dá de facto imenso jeito, não só para quando é usado pelo miúdo, mas dou-lhe imenso uso para trabalhar, aprender, entreter-me, não posso nem vou obviamente investir num novo só porque sim, e porque se algum dia puder fazer upgrade será para o Ipad pro, e este ficará sempre para uso doméstico.

Só que comecei a pensar nas coisas que se têm partido (apenas e somente) nas minhas mãos ultimamente.
E quando digo ultimamente é tipo nos últimos 2, 3 meses. 
2 pratos, 1 copo, 2 frascos de vidro que uso para guardar coisas, uma prateleira de vidro do frigorífico que era a tampa da gaveta da fruta, e agora, o vidro do ipad. Só para perceberem, os pratos e copos estão na casa desde que cá comecei a viver e já lá vão 10 anos que aqui estou. E só agora começo a partir cenas.

E para finalizar, agorinha mesmo, o que me leva a contar-vos esta história... Estava a tirar um frasco de vidro de uma prateleira alta, e garanto, estava a segurar num só, e outro que estava ao lado pura e simplesmente voou atrás. Se lhe toquei nem dei por isso. Felizmente tenho reflexos rápidos e apanhei-o, senão tinha mais vidros para apanhar.

Isto começa a não parecer coincidência não é? Que ervas devo queimar para parar com isto, sabem? Ou já estarei a endoidecer com o isolamento? 

sexta-feira, 20 de março de 2020

Confinamento e conforto

Nesta fase que todos vivemos, eu confesso que apesar da inquietação constante e das insónias que me assolam, no geral ando tranquila e calma, não me ando a passar com o confinamento entre 4 paredes, e levo estes dias com alguma leveza. Ando numa fase de re-enamoramento pela minha casa, e desde Setembro que as arrumações e organizações são uma realidade para que fique menos caótica e mais confortável. 
Quando fiquei desempregada no início do ano, o meu foco era principalmente na casa. Comprei móveis, montei móveis, limpei, arrumei, escolhi, empilhei mil coisas na arrecadação (será a próxima montanha a escalar), dei finalmente novo uso à minha secretária para me ocupar dos meus pequenos projectos e não só, e todo este espaço ficou mais respirável e agradável. 
Já está quase pronto a receber visitas novamente (as saudades que tenho de organizar almoços e jantares com amigos e família), mas essa parte vai ter de esperar.

(a minha secretária, com riscos feitos pelo miúdo e imagens que me inspiram - vou postar no instagram, mas as imagens que me acompanham são da Marta B Sousa, Ana Sílvia Agostinho, Amalteia e Anne M Bentley para a Flow)

Isto para dizer que estar em casa, por si só não me é doloroso ou aborrecido. Claro que não é fácil gerir o dia para todos comermos, dormirmos, estarmos confortáveis, trabalharmos, entretermos o miúdo (e não temos ainda a minha enteada connosco), fazermos algum exercício e afins, mas talvez pelo facto de ter estado em casa um bom pedaço antes, me preparou para fazer os meus dias entre portas. Não me sinto muito aborrecida. Mesmo não adiantando grande coisa no dia a dia, não escrevo e pouco desenho, ainda tenho uma pilha de roupa para passar, tenho um filho cuja palavra que mais repete é "mamã" e precisa de mim para adormecer, para acalmar, e não posso fazer nada à frente dele sob pena de que ele arrebate tudo o que tenho em mãos (computador, cadernos, canetas...enfim, uma alegria. Tendo em conta que sempre gostei de salvaguardar as minhas coisas é todo um teste de resistência e desapego). 
Mais do que nunca, sou grata pelo meu temperamento introvertido. 

Mas claro que sinto falta de contacto humano. Dos meus. Todos os dias há chamadas em vídeo, mais longas que o costume, penso muito no meu pai sozinho em casa e como esta solidão pode ser tão cansativa como uma criança pendurada em nós 24h por dia. 

Estamos todos juntos nisto, mesmo estando separados. Pela primeira vez, vivemos algo que nos nivela a nossa humanidade, verdadeiramente. Nas poucas vezes que saio à rua falo com toda a gente. Quando é que isso acontecia antes? Recebo e-mails de empresas e sim, há muita tentativa de negócio, mas também há palavras calorosas. Todos os dias há directos no instagram e afins, pequenas aulas online, correntes de comunicação nas redes sociais e mensagens com os meus amigos. Muitos memes e muito riso, e de repente sinto-me mais ligada às pessoas. 

Claro que há todo um mundo de preocupações económicas, políticas e práticas a enfrentar, mas tudo a seu tempo. Neste momento sinto uma gratidão imensa pela generosidade das pessoas, pelo sentido de comunidade que se instalou, pela solidariedade e reconhecimento.

Há pouco estendia roupa a ouvir os sinos da igreja, som que sempre associo a conforto e a casa. A primavera chegou, mas cheirava a outono no ar. E senti-me bem e esperançosa. Só espero que saibamos todos fazer a partir daqui um caminho equilibrado e constante daqui para a frente.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Die, diet, die


Desde que me tenho como gente que a palavra dieta faz parte do meu vocabulário. Felizmente não (logo) por minha causa, mas pela minha mãe. Vi-a experimentar um pouco de tudo, em constantes dietas, a tomar comprimidos, batidos, a ir a este ou aquele médico, a desistir ao fim de menos de um mês. Este era o comportamento normal. Estar em dieta, estragar a dieta, procurar a próxima dieta. O normal para muita gente.

Eu, com 14 anos comecei a ficar gordinha. Talvez tenha sido aquela fase de mudança corporal da adolescência, mas lembro-me bem da minha médica me dizer que eu precisava de perder 3 quilos. E a partir daí começou toda uma nova fase da minha vida em que eu percebi que tinha de controlar o que comia para poder sentir-me mais digna. Lembro-me bem de me sentir tremendamente reduzida a nada porque era a gordinha. E lembro-me de pensar que talvez esse fosse o meu passaporte para finalmente ser notada, reconhecida. Não sendo eu uma rainha da popularidade, isto era assim uma coisa com algum destaque na minha vida. E assim foi, desde aí.

No entanto, nunca me senti muito confortável. Nunca levei muitas dietas a fundo, nunca gostei muito desta coisa da escravidão na comida, até porque a cada dieta, a contenção fazia depois o efeito oposto, e dava por mim a comer mais do que devia, daquilo que não devia comer, a massacrar-me por não ter força de vontade nem controlo sobre a comida. Muitas vezes olhava-me ao espelho e não achava que fosse assim tão gorda, outras, tudo era gordura e celulite. Basicamente um ciclo de tormento e culpa.

Percebi recentemente que, mesmo numa fase em que me alimentei "melhor", em que fiz dietas e até fiquei bastante tempo num registo dito "saudável", que nunca fui tão magra como gostaria. Aliás, a única vez que fui assim magra, foi precisamente numa fase em que me sentia uma merda, e de facto estava elegante e esguia, mas tinha as omoplatas a sairem das costas, o externo seco, perdi mamas e pasme-se, continuava com perna gordinha, portanto nunca iria ser uma Gisele Bündchen da vida. Não há nada de mal em querer perder algum peso, em querer seguir um estilo de vida saudável, em querer estar bem comigo mesma. Mas não sei se é uma dieta que vai conquistar isto. E chego a uma inevitável conclusão...

Eu não quero fazer dieta! 
Percebi isso depois do Gonçalo nascer, com a amamentação, com as mudanças a que o meu corpo teve de se ajustar. Epá, não me apetece! E assim dei-me permissão para parar de pensar em dieta. Maaaaaaas... neste último ano senti que perdi muito o controlo do que como, e percebi que algo mais está errado. A minha relação com a comida está muito deteriorada. Vejo tudo como comidas boas e más, sinto-me culpada ainda, continuava a ter episódios de comer este mundo e o outro. Portanto, estava na mesma, apenas não estava num plano alimentar, porque a culpa e a vergonha ainda estavam lá.
Pensei em consertar isto tudo com outra dieta, mas para além de não me sentir bem a limitar o que como ainda estou a amamentar e não sinto que o deva fazer, para além de que, tendo de fazer ainda comida à parte para  miúdo (por pouco tempo, felizmente, ele já come quase tudo o que comemos), não me ia meter a braços com mais um prato à parte para mim. Mas, acima de tudo, continuava com a estranha sensação que isso não vai funcionar comigo.

E começou de uma forma muito simples e sem grande intenção, comecei a ler sobre motivação, sobre amor-próprio, porque se queria uma mudança, queria que ela viesse de um lugar de amor e não porque estou em luta comigo mesma. Queria acalmar os meus conflitos primeiro. Aos poucos tenho descoberto, de uma forma muito orgânica pela internet fora, algumas pessoas que falam destes assuntos de uma forma que me faz sentido. Comecei a ler e a informar-me, a acenar lentamente que sim aos artigos cientificamente fundamentados que as dietas não funcionam e que andamos a lixar o nosso sistema há décadas. Se já antes admirava modelos plus-size e outras activistas do positivismo corporal, encontrei pessoas ainda mais activas nas redes sociais, na imprensa, e em blogs, que exploram ainda mais o tema e preconizam uma quebra neste ciclo interminável de ódio e guerra com o próprio corpo, e agora estou plenamente convicta que há outro caminho a seguir. O da aceitação, da permissão, da compaixão.

Quero aprender sobre alimentação intuitiva, quero saber gostar de mim, quero quebrar o ciclo e sentir paz.
E acreditem, não é fácil, não é um caminho linear, não é acordar e decidir e já está. Também exige trabalho e muito exame de consciência.  Mas há algo neste caminho que me entusiasma. Ao contrário da ideia de trabalhar em mais uma dieta, a ideia de pegar em mim e ouvir o meu corpo dá-me ânimo. Não sei ainda se e quando vou conseguir, mas ainda só estou a começar.

Por aí também lutam muito convosco mesmas? Já pensaram seguir este caminho? Tenho muitos recursos que tenciono partilhar em breve, mas gostava muito que me contassem o que pensam sobre estes assuntos.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Sobre a palavra para 2019 e o que quero para o novo ano

Confesso que ando com formigueiro desde o final de 2018, com vontade de fazer de 2019 um ano de actividade e produtividade. Depois de 2 anos de abrandamento e reclusão, em que parei com tudo o que era supérfluo e foquei-me na família e em casa, apetece-me começar a sair da casca e experimentar novamente coisas fora da minha zona de conforto.

Claro que entretanto apetece-me fazer tudo, mas ando a tentar reconhecer o que quero fazer e onde me focar para não desperdiçar energia nem voltar a procurar coisas que não têm a ver comigo (a ver se o ESSENCIAL não ficou apenas em 2018). No entanto é difícil de domar um entusiasmo parvo que por vezes me preenche. Uma coisa que percebo sobre mim, ainda me acontece tanta vez sentir-me a inundar de entusiasmo e paixão pela vida e pelas possibilidades de criar algo novo. Não precisa ser exclusivamente no início de um novo ano, claro. E gosto genuinamente desta característica em mim, quando vejo que consigo repescar aquela energia da criança e adolescente, que se deslumbra e encontra magia no mundo. Sem grandes ingenuidades, sei o que custa a vida e que as coisas boas exigem trabalho. Mas bolas, ainda bem que isto me sai naturalmente, não gostaria de fazer um esforço para ser optimista. 


Portanto, com esta vontade toda a abrir o ano, a palavra teria de significar movimento e atrevimento, mas ainda assim, saber quando abrandar e onde agitar as energias. Assim sendo e sem mais demoras, a palavra para 2019 é (Tcham tcham tcham tchaaaaammmm…) OUSAR (em inglês é tão mais dramático – DARE). Gosto do significado, ousar a sair da casca, a criar, a viver a vida que quero, a descobrir mais sobre mim, a errar. Simplesmente abrir-me para o mundo e avançar, com medos ou sem eles, em pleno. Porque há tanta coisa que fica pela metade ou pela vontade. 


Este ano, pela primeira vez, escolhi também palavras complementares, lembretes das áreas que quero focar esta palavra, ou se for preciso, abrigar-me dela (porque não vou estar em máximos sempre e também terei de ousar a descansar de vez em quando, sim, com direito a deixar a criança na escola e voltar para a casa suja para dormir ou bezerrar no sofá, se precisar). Por isso, CASA, CRESCIMENTO e CRIATIVIDADE também me acompanharão este ano. Parece-vos bem? Acham que dou conta do recado? Nunca pensei em mim como uma pessoa ousada, nem é exactamente esse o objectivo, quero garantir que consigo dar os passos para mudar as coisas e viver experiências de vida mais significativas para mim. A ver vamos se foi uma boa escolha. 


Posto isto, o que quero eu fazer em 2019? 

Como sabem (ou acho eu que sabem), eu fico-me pela palavra e não faço resoluções. No entanto há coisas que eu quero implementar aos poucos para 2019, que eu sei que quero trabalhar porque sinto essa vontade. Portanto há aqui 3 pontos que estão a ser tratados já já: 

O fim das dietas. No ano passado comecei a seguir contas de instagram do movimento Body Positive e os conceitos de alimentação intuitiva (na verdade já tinha ouvido falar disto há muitos anos, mas nunca aprofundei), sigo e leio profissionais da área que defendem estas premissas, ouço podcasts, leio livros sobre o tema. A verdade é que já não faço uma dieta desde que engravidei, escudei-me com a amamentação para não pensar nisso, mas há sempre uma voz cá dentro que não se cala de que eu devia fazer dieta e isto e aquilo. E cheguei à conclusão que preciso de mudar o paradigma. Deixar de me sentir incapaz ou pouco válida porque não tenho menos 10 quilos, a culpabilizar-me. Então ando a tentar encontrar o meu caminho aqui no meio. Não é fácil perceber como pode tudo funcionar, mas não quero mais ficar refém de dietas. Um dia escrevo sobre isto. 


Sustentabilidade. Sempre estive relativamente atenta às questões ecológicas e éticas, há muitos anos que fecho a torneira quando lavo os dentes, tomo banhos curtos, reduzo e reutilizo ao máximo o plástico antes de o reciclar. Mas ainda é pouco. Ando passo a passo, mas com alguma consistência a implementar algumas mudanças. Já comecei a usar apenas maquilhagem vegan e sem testes em animais, voltámos ao sabonete sólido lá em casa (ainda só para banhos, e só para os adultos, mas já é um passo), quero começar a usar champô sólido e o copo menstrual, uso cotonetes biodegradáveis (são de papel e ainda não são a solução ideal, mas lá chegaremos) e vou começar a usar produtos mais naturais ou feitos em casa para algumas necessidades (por exemplo, um esfoliante, pode sempre ser caseiro, gasta-se menos em embalagens e não polui tanto também). Quero estabelecer mais refeições vegetarianas em casa. Estou longe de estar a adoptar medidas perfeitas, mas uma vez que não vivo sozinha e não é fácil implementar mudanças radicais, vamos continuando a dar pequenos passos, na esperança que isto fique e se torne cada vez mais o nosso estilo de vida. 


 Alimentar a criatividade. Não é segredo que eu gostaria de abranger muito mais o que faço e começar a dar passos na ilustração e alimentar o meu portfolio e o bichinho criativo. Nunca tive um espirito empreendedor para me lançar num negócio próprio, e nem sei se esta é a melhor altura para tentar (ou se eu até quero) tal coisa. No entanto, mesmo não me atirando a pés juntos, gostava muito mesmo de apostar mais fortemente nesta vertente e que o meu blog reflectisse precisamente isso (afinal, o objectivo dele era mesmo este, mas algures pelo caminho tornou-se também o meu diário pessoal). Portanto quero desenhar mais, desenvolver competências na ilustração digital, produzir trabalho mais criativo que me desafie, escrever mais, enfim. Para já, comecei a fazer um desenho por dia (quem me segue no instagram já viu) no caderno da lifestories (já não fazia isto há anos, na altura deixei o desafio a meio, desta vez quero levá-lo ao fim), mas não quero ficar por aqui. Vamos devagarinho a ver no que é que dá. Tenho ideias em processo mas ainda não prometo nada que isto está complicado para os compromissos. 

 E este post já vai longo, aplaudo a paciência de quem me lê até ao fim.

 Será boa altura para perguntar… vocês gostam de ler estes posts compridos? Têm paciência para as minhas viagens na maionese? Ou gostavam de coisas mais curtas e grossas, mais sentido de humor e palavrões…? Os desenhos parecem-vos bem ou não vos dizem nada(mas aí confesso que mesmo que não gostem muito acho que vão levar com eles na mesma, ando no mood de partilhar)? 

Enfim, respondam se quiserem, e se vos apetecer, caso tenham uma palavra do ano, uma resolução, intenção, para dois mil e dezanove, partilhem também nos comentários, adoro saber o que se passa por esses lados. Obrigada e um bom ano!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Despedir-me de 2018



Eu sei que este post deveria ter sido escrito há mais tempo, mas isto não tem propriamente regras fixas (e atendendo à assiduidade com que escrevo este blog, ainda estou surpreendida por conseguir fazer um post de despedida do ano velho ainda só passados 2 dias no ano novo).
Não me vou alongar muito neste post, até porque se tudo correr bem, tenho coisas para escrever em breve e talvez consiga manter um ritmo mais ou menos aqui no tasco. Mas preciso de escrever sobre este ano. 

Apesar de estar a preencher o meu Unravel the year, em que muito é dedicado ao ano que passou, e ter para mim um registo, sinto que o devo fazer aqui, porque a reflexão faz parte deste blog, e também me dá um sentido de "accountability" (como é que se diz isso em português?), em que posso perceber onde estou, o que mudou, o que evoluiu, o que ficou para trás.

2018 foi um ano estranho. Para mim foi bom, no geral. Perdi a minha avó no início do ano e foi a minha maior dor, mas arrumei relativamente bem a situação, encaixei a doença que a consumiu com alguma naturalidade, aceitei a perda e percebi que ela estava também pronta para que tudo cessasse, e sabia que ela queria descansar. E sei que ela aproveitou muito a vida dela, não se privou de excessos, de falar sempre o que pensava e de viver como ela queria, mesmo que a vida não fosse exactamente o que ela desejasse e esperava. 
Quanto a mim, como já aqui expliquei, a palavra do ano ajudou-me muito a pesar os passos que fui dando ao longo do do ano. A rejeitar o que não interessava, a perceber o que realmente é importante em cada situação. Ajudou-me a vários níveis, a perceber o meu papel no emprego, a conhecer-me melhor, a superar conflitos, a perdoar e aceitar determinadas coisas. Claro que não foi perfeito, nem eu fui, mas a verdade é que senti que esta palavra foi provavelmente a mais interessante que já escolhi e foi inacreditavelmente útil.


2018 foi um ano de autoconhecimento e depuração. 
Tomei alguns passos de que me orgulho, doei cabelo e comecei alguns passos em direcção a um modo de vida mais sustentável - mais uma vez, não são muitos nem muito perfeitos, continuo a ter outras opções menos simpáticas, mas comecei a rejeitar determinadas marcas, tento reduzir o consumo de plástico sempre que posso, rejeitei palhinhas e deixei de comprar marcas de cosmética que testam em animais. Não é muito, mas são passos sólidos que tenciono prolongar e abranger em 2019 (já tenho algumas coisas em mente para começar a aplicar... baby steps).

Foi um ano em que voltei a ter casamentos para ir, vi bebés a nascer, vi gravidezes a surgir.

Foi um ano em que conheci mais pessoas nessa internet fora que pensam como eu e me encheram os dias de trocas alegres de palavras e piadas e carinho mútuo. Já há algum tempo que não sentia isto e é sempre bom ver as amizades virtuais a aparecerem e a contribuírem para a nossa felicidade.

Mas também foi um ano triste, demasiado triste para algumas pessoas que conheço e que gosto. Vi perdas absolutamente irreparáveis a acontecer, mortes demasiado trágicas, que me tiraram o chão. Assistir a isto tornou-me uma pessoa mais grata e mais consciente da fragilidade da vida e também me continua a impelir para lutar pelo que me faz feliz. 

Para 2019 quero erguer a cabeça e fazer coisas que me dão prazer e orgulho em mim mesma. Abracei o conceito do positivismo corporal e ando a fazer um esforço consciente para retirar a mentalidade de dieta do meu discurso e dos meus pensamentos, eu mereço ser feliz com o que tenho, com quem sou agora, e tudo o que eu sou é muito mais do que um corpo. 



Estou cheia de energia e optimismo para este ano. Só quero que seja um ano bom para as minhas pessoas. 

Deixei 2018 terminar com alguma calma e paz. Aproveitei os dias de férias para deixar o miúdo na escola e arrumar, preparar coisas, e renovar as minhas energias. Estas fotos foram tiradas num pequeno passeio a semana passada, durante uma manhã. Um bocadinho de natureza, ainda que seja recortada pela paisagem urbana, deu-me alento e forças para procurar o melhor. 

Em breve falo-vos da palavra que escolhi para 2019 e alguns planos e novidades que se avizinham. Obrigada por estarem aí e que seja um ano estupidamente feliz para todos.




quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Essencial

Como já disse antes, escolhi para palavra deste ano ESSENCIAL, porque no ano anterior tinha tido um tal arrombo na minha vida com o nascimento do Gonçalo, a luta que foi para amamentar e para superar um baby blues paralisante, esta palavra remetia para uma calma e análise que não costumam ser características típicas minhas, mas que precisava para compreender e aceitar as mudanças que a minha vida tinha acabado de sofrer. E ao mesmo tempo, não me perder de quem sou e daquilo que me caracteriza e do que gosto. E agora que o fim do ano se aproxima, começo a reflectir muito sobre isto, se funcionou para mim, se vivi esta palavra (e o seu significado) verdadeiramente ou se estive aquém.





O que este ano foi para mim
Pelas pesquisas que fui fazendo ocasionalmente no Pinterest e que alimentavam o meu board para a palavra (um hábito que quero continuar a manter para os próximos anos e próximas palavras), ESSENCIAL está ligado ao minimalismo, e se no início pensava em entrar numa onda de arrumação e destralhamento, não consegui reflectir minimamente esse conceito da coisa. 

O meu essencial não é tanto sobre como reduzir coisas da minha vida, mas antes o processo de estar em plena confusão e tentar orientar-me se quero ou não manter e como procurei (e procuro) perceber essencialmente quem sou, o que quero, para onde tenciono ir. 

Porque durante os últimos anos alimentei um sem número de sonhos mais ou menos realistas, muito baseados no que via pela internet fora (escrevi um pouco sobre isto aqui) e cheguei recentemente à conclusão que andei meio desorientada com isto tudo e sem tirar verdadeiro proveito das coisas. Percebi por exemplo que gostei muito de explorar a costura, mas não seria para fazer disso negócio, queria mesmo é saber como se fazem algumas coisas e divertir-me. Ainda adoro coisas craftys e projectos DIY mas já não quero fotografar mil vezes o que faço para por no blog ou no instagram. Quero só usufruir. E depois até posso partilhar, se me apetecer.

Sinto que 2018 foi uma espécie de ano zero do resto da minha vida. Porque foi um ano em que desarrumei as gavetas figurativas da minha mente e tentei por ordem no caos. 
Fiz muitas listas, ainda faço. Comecei por fazer playlists, bucketlists (é tão mais fácil escrever em estrangeiro), fiz desafios de journaling e reflecti sobre alguns temas. Foi engraçado. 
Dei por mim a ler e a dar abertura para explorar um mundo de gente que fala de temas mais holísticos (e por vezes quase esotéricos), de coaches motivacionais (quer acredite muito nisso ou não), li e-books, posts em blogs, ouço podcasts dentro destes temas do autoconhecimento e de desenvolvimento pessoal, sempre de espírito aberto e sentido crítico qb. Também andei por aí a explorar todo o tema de aceitação corporal e alimentação intuitiva. Descobri coisas interessantes, e pela primeira vez dei por mim a separar o que interessava do que era acessório. Não me apeteceu por nada em prática, apenas porque senti que o essencial era mesmo informar-me e avaliar à distância o que me interessa. Ando a dar algum tempo para as coisas ficarem ou passarem. Continuo a fazer listas, reflicto sobre os temas que me despertam alguma atenção, mas essencialmente gosto da sensação de que não me fechei ao mundo, mas antes mudei a mentalidade com que encaro estas coisas. E não me sinto assoberbada nem assustada com o excesso de informação interessante e útil. Estou ainda apenas a distinguir o que é importante para mim. E pegar numa coisa de cada vez (esta é provavelmente a minha maior conquista).

Em casa, abracei o caos. Gostava de destralhar, sim, mas enquanto não dá vou fazendo por orientar tudo o melhor que possa. Se todos tivermos roupa para vestir, comida, cuidados básicos de higiene, abraços e sorrisos para partilhar, já estamos bem encaminhados. O resto vai devagar. No trabalho, afasto-me de conflitos e aprendo a focar-me cada vez mais nas minhas tarefas, dou por mim a melhorar métodos de trabalho e os resultados estão à vista. Sinto-me extremamente orgulhosa de mim, porque acho que sou tão melhor profissional agora, mesmo usufruindo de uma redução horária.

Cheguei à conclusão que o essencial para mim não é desligar e deitar fora tudo o que é acessório. Eu preciso de muita coisa diferente para me motivar e me manter interessada. Preciso de livros por ler, de coisas a acontecer, de ter múltiplos interesses parados no tempo, à espera que me apeteça.

O essencial é saber gerir as prioridades do cérebro, parar com o multitasking, ouvir o corpo, o instinto, saber quando acrescentar e quando retirar, saber quando parar e quando descansar (não quero voltar a passar por um burnout). Tem muito a ver com autoconhecimento, e com a atitude que escolhi adoptar perante estas coisas, e pela primeira vez em muito tempo, começo a perceber bem quem sou. Pelo menos muito melhor do que até aqui.
Acho que foi uma boa palavra.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Ai pessoas...!

Estou cansada das pessoas. Muito a sério. Cansada da facilidade com que as pessoas descartam e destratam as outras, a facilidade como empurram os outros com a barriga para ficarem eles próprios no centro das atenções. Não posso mais participar em conversas onde só te ouvem porque estão à espera da vez deles para falar, e isto quando te ouvem, porque grande parte das vezes impõem-se, dominam tudo e não te deixam sequer opinar porque apenas a opinião deles conta.

Detesto como vejo pessoas a tirar conclusões sobre os outros e como espalham as suas visões e opiniões deturpadas pela sua própria perspectiva da vida porque têm de odiar alguém, porque tem de haver um objecto de rejeição, de conversa, de desprezo conjunto. Porque rejeitar é fácil, rejeitar une pessoas sob um denominador comum. Excepto que há as que ficam de fora, as que são ignoradas. E por vezes muito obviamente rejeitadas, a tentar fazer de tudo para não serem postas de parte, mas sem sucesso.

Odeio quando rotulam assim as pessoas. Sem dó nem piedade, sem tolerância, sem um mínimo de compreensão e compaixão.

Odeio que essas atitudes de merda sejam tão tóxicas que contaminem todos em redor.

Não sou nenhuma santa. Eu ainda julgo, critico e aponto o dedo. Mais vezes do que gostaria. Mas se antes o fazia e empinava o nariz, orgulhosa, hoje repenso, recolho o braço esticado em tom acusador e questiono. Não conheço o íntimo de ninguém, não sei o que passa, não sei as dores por que passam. E se não me está a fazer mal ou a provocar uma ofensa mortal, que direito tenho eu de rebaixar alguém? Porque me irrita? Porque não é igual à carneirada?


Infelizmente há quem queira ter a razão à força, que impõe a sua verdade impugnável e com isso empurra os outros para fora de vista. Como se isso não ofendesse também. Como se isso não magoasse.

O que nos dá o direito de atropelar assim as pessoas? Porque raio isso nunca ficou arquivado nos tempos de escola? Onde anda a compreensão e tolerância que tantos gostam de aclamar mas que depois quando lhes convém, fica esquecida?

Não precisamos de ser todos amigos de toda a gente e amar o mundo, claro que existem círculos mais restritos e devemos estar com quem nos diz mais, mas não é sempre assim que funciona a vida, também temos de tolerar e conviver com quem não nos é tão próximo. Rejeitar e rebaixar só porque é conveniente ou porque nos achamos na posse de uma qualquer posição superior à dos outros não é aceitável. Não sejamos então estas bestas críticas e intolerantes, não façamos aos outros aquilo que não gostamos que nos façam a nós. Será que custa muito?

Foda-se, eu achava que não. Mas já me enganei por menos…

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Setembro é sempre aquele mês...

Eis que 3 semanas volvidas estou de volta a estas lides, apenas para constatar que as férias passam sempre a correr, mesmo que durma pouco. Não vou entrar em detalhes do que é ter quase 3 semanas de férias para só ir 1 para fora e as restantes serem para limpar, arrumar, organizar a casa e a roupa. Nem o que é passar férias com crianças (spoiler: não são férias) ou dicas para o mesmo (deus me livre, nem sei como sobrevivi).
Apenas queria fazer uma pequena reflexão sobre o que é voltar à minha terrinha e como é regressar a casa depois de lá passar uns dias. Spoiler: é maravilhoso. Não interessa que esteja em férias que não são férias, que não consiga parar um segundo, que tenha levado papel e caneta e não escrevi uma linha, mas a inspiração que recebo dali continua a tocar-me, mesmo quando não posso fazer nada quanto a isso. E soube mesmo bem regressar a casa e perceber que sinto novamente Setembro como um mês de recomeços. Mais uma vez, não que tenha feito grande coisa sobre isso, andámos a matar saudades da família no regresso e depois começámos a levar a injecção da creche, que é todo um novo capítulo e uma nova dor-de-cabeça.
Mas a aproximação do Outono faz sempre com que me apeteça planear os próximos passos, começar esta fase do ano com outra energia e vontade, recolher em casa, projectar intenções para a minha vida… É sem dúvida, a minha fase do ano preferida.
Agora vamos a ver se isto não cai em saco roto e realmente avanço com as coisas. Ando já a fazer listas e a pensar no Natal (a ver se este é finalmente o ano em que despacho as prendas com mais antecedência para gozar dezembro com outra calma). Estou mais do que pronta para o Outono (até porque o verão não colabora e já quer avançar para a próxima estação). Vamos a isto?

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Amamãetação, ou como isto custa como o raio - parte 3

Chegámos à terceira e última parte de posts sobre a amamentação. Não volto a fazer-vos uma destas tão cedo...

Pois bem, passadas as dores e as agonias a coisa começou a decorrer mais tranquilamente. Ele mamava bem, tinha força, e eu finalmente conseguia parar para respirar. Foi nesta fase que consegui retomar leituras com calma enquanto ele demorava eternidades a mamar. A sério, o miúdo demorava o tempo que queria! Dormia pelo meio. Por vezes pousava-o e 5 minutos depois queria leite. Não conseguia perceber quando estava satisfeito. Finalmente ele tinha atinado na mama e gostava muito da livre demanda. Não fazia intervalos maiores que duas horas, excepto de noite, que conseguia dormir umas 3 horas de seguida... de vez em quando. Não conseguia aumentar o intervalo de tempo entre mamadas, por muito que a pediatra e a enfermeira do CS insistissem.
Ele simplesmente ficava.

Entretanto, como ele crescia e as necessidades mudavam, a pediatra aumentou a quantidade de leite artificial. E aqui comecei eu a ficar desconfortável. A mastite já tinha passado, ou estava prestes a passar, vamos continuar a encher o miúdo de leite artificial? Agora que o meu corpo entrava no esquema tinha de correr o risco de desmamar? Não estava a achar muita piada.
Apesar de continuar a não adorar a experiência da amamentação em si, não queria ser empurrada para fora dela. Comecei então aos poucos a ler artigos sobre largar a alimentação complementar e dar mama em exclusivo. Sabia que era possível, sabia de uma experiência em primeira mão. Mas não sabia o como.
(Faço aqui o parênteses sobre o assunto de contactar ajuda especializada de uma enfermeira ou uma CAM. Eu tentei no início, mas em Agosto era uma fase de férias e nem toda a gente estava disponível, o grupo da Liga La Leche estava parado, a irmã de uma rapariga que conhecia, que é enfermeira especializada também esteve quase para vir ajudar, mas uma noite mal dormida ditou que o encontro não acontecesse e essa rapariga estava grávida de fim de tempo, não deu para outras combinações. Por isso isto foi tudo muito à base de procurar soluções e tentá-las organicamente.)

Então fui testando. Continuava a dar de mamar em livre demanda. Por vezes não dava o leite artificial (especialmente porque ele mamava com muita frequência, e não podia fazer intervalos menores que 3 horas), à noite, com a preguiça em aquecer biberões e afins, quase não dava e ele parecia bem e satisfeito. E aumentava de peso. Numa consulta de rotina disseram que podia tirar o leite artificial à vontade, que o meu era suficiente. Só dava leite artificial à noite naquela de ver se ele dormia mais (nunca funcionou) e ele continuava a desenvolver-se lindamente. Uma noite tirei o leite artificial e não notei diferença. E assim voltei a amamentar em exclusivo. 
No meio disto tudo, devo ter comprado umas 3 ou 4 latas de leite artificial. 
Olhando para trás, parece ter sido um processo relativamente simples, mas naquelas fases complicadas, na loucura das hormonas, fui muito infeliz. Ninguém nos prepara para isto.

Hoje em dia ainda amamento. Não planeei nada disto, não sei até quando vou amamentar, se vou desmamá-lo por livre vontade ou esperar até ele querer. O que sei sobre este assunto é:

1- Amamentar é uma cena pessoal. Nunca deveremos julgar ninguém ou tentar influenciá-la só porque não concordamos. Eu já tive em todos os lugares do espectro, desde odiar com todas as forças, como adorar profundamente a experiência. Chorei de dor e de alegria. Mas não quer dizer que seja assim com toda a gente. Respeito toda a mãe que amamenta até aos cinco, como a que amamenta 6 meses, como a que não amamenta porque não pode, como a que amamenta porque não quer. Eu tive alguma sorte com a minha experiência, insisti porque quis e por alguma preguiça em assumir determinadas mudanças. Não sou nenhuma heroína por ainda amamentar, mas tenho motivos para dar continuidade.

2- Deveríamos mesmo ter acompanhamento mais especializado disponível. A amamentação é pior do que a gravidez e a privação de sono, e birras, tudo combinado. Mil obrigados às enfermeiras do SOS Amamentação, às enfermeiras do centro de saúde que foram dando apoio e conselhos, às mães que, amamentando ou não, me deram muitas perspectivas sobre o assunto para eu poder decidir o que queria fazer. Procurem sempre apoio e ajuda se têm dúvidas.

3- Amamentar pode ser muito lindo, mas também pode ser a pior seca da vida. Quando o bebé demorava 40 minutos a mamar em cada mama (até chegar aos 3 meses, idade em que lá aprendeu a acelerar a coisa) eu andava a morrer uma morte lenta de tanto tédio. Vá que me fui orientando para ler durante o processo. Essa coisa do vínculo especial... eh! Há momentos muito bonitos e especiais, claro, muitos deles gerados da minha emoção, porque o Gonçalo sempre foi irrequieto e não ficava embevecido a olhar para mim nem me lia os pensamentos, como se poderia imaginar, mas também podem existir momentos em tantas outras circunstâncias, e  as vezes em prefere estar com o pai, que nunca amamentou? 
Faz tudo parte. Pode ser lindo mas não vai propriamente descer uma luz divina sobre nós.

4- É uma espécie de super poder. Não é bem, mas sinto-me como tal por isso... :P

Resumindo. Façam o que querem. O corpo é vosso, as mamas são vossas. O que interessa é um bebé alimentado e nutrido, e uma mãe que pode zelar pelo crescimento dele em paz consigo própria. Custou-me a interiorizar isto, mas é mesmo isto.
E fechamos este assunto aqui.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Andamos todas perdidas?

Para quem não me segue no facebook ou no Instagram, estou de férias. Para a semana estarei fora de Lisboa, mas por enquanto, estou por casa, a orientar as coisas devagarinho, a limpar a casa, a preparar a tralha para a viagem, tudo com muita calma. E pelo meio, fazemos manhãs de praia tranquilas com o Gonçalo, ele ainda dorme uma pequena sesta debaixo do chapéu e nós temos a ilusão de que podemos curtir a praia, tomar um banho de mar, folhear uma revista e apanhar uma corzinha.

Mas não era bem este assunto que vos queria trazer.
Hoje, quando fomos à praia, estava uma rapariga sozinha ao pé do nosso chapéu. Nós ficámos por lá cerca de 1h30, e neste tempo, ela foi ao mar uma vez, fumou bastantes cigarros e passou 95% do tempo ao telefone. Ora ligava a amigas, ora ligava à chefe, ora ligava a um cliente para combinar detalhes de um serviço qualquer... 

Enfim, passei a minha parca hora e meia de praia a ouvi-la desenrolar a vida e o dia-a-dia. Houve duas situações que me prenderam. Uma delas, em que a chefe lhe aconselha a ser mais assertiva com um cliente porque não poderia dar-lhe tudo o que ele pretendia no tempo que ele queria. Ao que a oiço falar com ele ao telefone como se estivesse chateada e prestes a insultá-lo, porque obviamente ela nunca soube dizer que não nem impor limites, então saíu-lhe um tom de voz mais agressivo do que seria de esperar. 
A segunda situação foi a que me fez ficar a pensar. Alguém lhe ligou a cobrar algo. Diria que é um namorado ou aspirante a namorado, que tentou contactá-la na noite anterior mas como ela se deitou cedo, não lhe retornou a chamada/mensagem/convite/whatever. E ela, ao falar com ele para lhe travar as inseguranças disse algumas frases que me ficaram... "epá, eu agora não olho para o telemóvel à noite, o que me está a fazer lindamente, devo dizer" e "eu ando a cuidar de mim, hoje levantei-me às 7h e fui caminhar, ando a ir ao ginásio, vim à praia sozinha...". E doeu-me um pouco o coração por ela. 

Não que houvesse algo de mal no que ela disse ou no que faz, pelo contrário (quem me dera voltar ao ginásio e ir à praia sozinha). Mas por perceber a insegurança por detrás de tanta actividade. Não sei se ela estaria a enfrentar uma depressão ou apenas a tentar dar alguns passos numa evolução pessoal. Como vemos tantas vezes nessa internet fora. Até na porcaria dos detox digitais e afins vamos nas modas (sim, eu assumo, o meu detox digital foi fraco e não rendeu nada, foi mais uma experiência para sentir que consigo, eu ainda não estou pronta para abdicar da distração que as redes sociais trazem, tal como não tenho estado preparada para fazer dietas e continuo com peso a mais).

Fiquei triste porque andamos todos a tentar encontrar um propósito, porque a internet e a vida digital nos trazem tanta informação, mas também tanta frustração. E aparentemente, nestas experiências pessoais, também não acrescenta propriamente algum conteúdo, porque muito disto é superficial. 

Aquela rapariga podia estar a deixar o telefone desligado à noite, mas é óbvio que não sabe estar sozinha, senão não teria passado todo o tempo ao telefone a falar com várias pessoas, e acredito que não tenha tirado prazer algum da sua passagem pela praia. 
Estamos todos a ser mordidos pelos bichos do mindfulness e da felicidade e seguimos os passos que nos sugerem na esperança de encontrar aquela faísca, aquele momento "eureka" e esquecemo-nos de viver, esquecemo-nos de olhar para nós e perceber se é mesmo aquilo que queremos e gostamos. Se calhar para ela o ideal seria ir a um shopping, e se calhar sairia de lá com a cabeça mais tranquila do que estar na praia sozinha apenas porque algum guru de auto-ajuda ou uma influencer dizem que é bom.  

Claro que sou a favor do melhoramento pessoal, mas também do auto conhecimento. Mas temos de saber o que gostamos e o que nos faz feliz. Comigo, quando estou muito confusa e cansada e stressada, ler é o melhor remédio. É onde sou feliz e estou plenamente tranquila, onde posso ser eu. E a partir daí posso decidir o que fazer a seguir. Mesmo que não seja a minha área de conforto. 
E sei que já sou uma sortuda por saber isto. Mas tenho pena, tenho tanta pena de não sabermos lidar connosco próprios. Estaremos perdidos? Seremos cegos a liderar cegos? Algum dia tudo isto fará sentido? 
Enfim, não procuro respostas, apenas queria partilhar esta reflexão convosco.
Se não voltar entretanto, boas férias para mim... ;)

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Reflexões sobre sonhar e querer fazer. Ou querer sonhar.

Quando era pequena, queria viver como a Ana dos cabelos ruivos, numa quinta idílica no cenário maravilhoso que era o frontão verde. Queria uma vida rodeada de paisagens naturais, caminhos ladeados de árvores e flores até à escola ou até à casa da minha melhor amiga. Queria uma quinta com animais, ovos frescos todas as manhãs, leite acabado de ordenhar da vaca, viver uma vida mais lenta, ter tempo e espaço para escrever e desenhar e pintar.

Eu identificava-me plenamente com a Ana, acima de tudo no facto de ser uma cabeça no ar que vive a vida presa à imaginação e muito pouco na realidade.
E é engraçado porque já dei mil voltas, mas acho que eu continuo a ser assim.
Só que a um outro nível. O nível das histórias de encantar das redes sociais.

Já me deixei deslumbrar por tudo isso, e tempos houve em que adoraria ser como aquelas bloggers que transcenderam e ganharam notoriedade e dinheiro e têm um emprego de sonho a trabalhar de pijama no sofá. Já achei que tinha de aprender a costurar, a tricotar, a pintar aguarela, gestão de redes sociais, fotografia, escrita criativa. E fiz muitas destas coisas cheia de vontade e intenção. Comprei cursos online, e-books, alimentei-me desta informação, entusiasmada. Ainda hoje tenho uns quantos por fazer, porque convenhamos... não há tempo para tudo.

Mas sinto por vezes que nunca me entreguei verdadeiramente a nada. Ainda exploro alguns destes meios criativos (sendo que a escrita e o desenho/pintura sempre foi o meu foco principal porque sempre adorei fazer) e acho que me vai apetecer sempre dedicar-me um pouco a tudo isto. Vou sempre gostar de trabalhos manuais e de fotografia e de escrever muito. E não há mal em gostar de tudo e ser interessada em muita coisa. Só acho que insisti nisto pelos princípios errados. Acho que queria a vida de algumas pessoas que seguia. 

Recentemente libertei-me da ideia de que este terá de ser um objectivo profissional, ou que me iria fazer mudar de vida. Sim, a mudança vem, mas há muitas formas de mudar. A mim tem-me ajudado a repensar, a procurar-me, e não tanto “isto agora tem de me preencher enquanto pessoa, senão não serei válida”. 

Tem sido um caminho algo frustrante este. Mas a verdade é que antes de procurar lá fora o que quero, deveria olhar para dentro de mim. E muitas vezes andei deslumbrada com o mundo que se vive do outro lado do ecrã, como se fosse o mundo da Ana dos cabelos ruivos. Como se, apesar da beleza, esse mundo não escondesse tristeza, frustração, solidão… A Ana era tão imaginativa porque precisava de um escape da sua vida de órfã. Eu sempre fui muito introvertida e não me dei muito bem com as convenções e com o mundo fora de portas, pelo que também vivia num mundo de fantasia.

Por isso agora quero mesmo é olhar para mim, para a minha vida, para os meus desejos e perceber o que quero, o que é para mim. E fazer coisas, do princípio ao fim. Devo-o a mim mesma, e aos meus. Mesmo que seja aborrecido ou sem objectivos. Será sempre especial porque é meu.