Wednesday, August 15, 2018

Amamãetação, ou como isto custa como o raio - parte 2

Continuamos a saga da amamentação. Sei que isto por vezes pode ser extremamente secante para quem não é mãe, mas escrevê-lo está a ser muito positivo para mim. Entretanto queria acrescentar, depois de ler o post da Lénia e ela focar um motivo muito forte para dar continuidade à amamentação... ser grátis e ser muito prático, sem ter de comprar um porradão de acessórios e afins. Mas ainda vou falar nisso. Para já, o Gonçalo tinha pegado finalmente na mama...

O puto mamava até se fartar. Larguei a bomba, não tinha necessidade dela. Eu andava dedicada à coisa, fazia calor e frio, punha creme de lanolina, dava leite em livre demanda (que odiei nesta fase), não fazia feridas nem estava particularmente incomodada. Achava que já estava a caminho do sucesso.

Até que um ou dois dias depois de ele pegar na mama, senti frio e estava cansada. Estávamos em Agosto, num verão super quente. Algo não estava muito bem. Tinha febre, e rapidamente me apercebi que tinha um durão na mama esquerda. Pouco depois percebi que afinal eram dois. E a pele começou a ficar rosada, em cima do durão. Não doía muito, mas incomodava e assustava. Decido ligar para o SOS Amamentação (que foram umas queridas, e com quem acabei por falar várias vezes nestes primeiros tempos). Descrevi o que se passava comigo, me lá me dizem que teria certamente uma mastite e encheram-me de conselhos e recomendações sobre como massajar o peito e minimizar a coisa e desfazer os nós. Era importante o bebé mamar muito da mama afectada para ajudar a voltar tudo ao normal. 
Ao mesmo tempo, tive a oportunidade de consultar rapidamente a minha obstetra, que viu e confirmou que estes eram sintomas de uma mastite, prescreveu uma receita de antibiótico e anti-inflamatórios e eu cruzava os dedos para que o esforço conjunto desse certo. 
Eu tentei fazer tudo certinho.

Só que depois começou a doer quando dava de mamar. Punha compressas quentes, punha o bebé a mamar, compressas frias, fazia massagens com uma garrafa de plástico com água quente, punha folhas de alface congeladas a seguir (recomendações e truques das enfermeiras da SOS Amamentação), e mesmo com os comprimidos todos, não passava. Eu começava a temer cada vez que o Gonçalo chorava para comer. Na mama direita, apesar de não ter nada visível comecei a ter dores excruciantes e assustadoras, como se em vez de sair leite, me estivessem a introduzir ácido pelo interior da mama. Tinha de morder a minha mão para não gritar de dor. Mas chorei muito.

Foi aqui que comecei seriamente a pensar desistir desta merda toda. Sentia-me triste, exausta e sozinha.

Eu ficava rancorosa com as outras mães que me mandavam mensagens de força e diziam para continuar, que elas também tinham superado e coiso. Até que uma prima me ligou e contou a história de amamentação dela, que durou apenas 2 meses (e que na altura me parecia uma eternidade. Eu levava duas ou três semanas disto, naquele momento não me imaginava a dar de mamar 2 meses), mas ela lá partilhou a história dela, dizia que lhe doía, que fez feridas e sangrava, e tinha sido traumatizante, que temia cada momento em que tinha de dar de mamar e quando desistiu se sentiu tão mais tranquila para simplesmente ser mãe. Terminou com um “faria na boa 10 partos sem anestesia do que voltar a dar de mamar”. 

Eu revi-me MUITO na experiência dela e fiquei bem mais calma depois desta conversa. É que por muitas boas intenções que toda a gente tivesse, eu estava realmente a sofrer e às vezes, mais do que encorajamento em seguir em frente só queremos ouvir "é ok se parares, não precisas mesmo de fazer isto se não quiseres". 

Ponderei bem o processo todo para parar com a amamentação. Mas não sabia se queria deixar já. Eu queria muito amamentar e queria muito que aquela infecção passasse. Disse a mim mesma que tentaria mais uma semana, que dava hipótese ao antibiótico para funcionar, para o caroço desinchar, etc. Só que o antibiótico pouco adiantou. Os dias passavam e não notava diferença. As dores continuavam, eu chorava a amamentar e dizia a mim mesma que aquilo era absolutamente errado, que ia parar.

Mas era a minha escolha (ainda que a questionasse umas 578 vezes por dia). Ouvi uma história de uma rapariga que parou a amamentação num momento de stress e se arrependeu. Eu não me queria arrepender, eu sonhei tanto com aquele momento, com aquele filho, ainda não me sentia pronta a desistir.

E sim, antes que perguntem, eu tinha noção que estava a ceder, não sei se às convenções de "amamentar é que é", ou se tinha algum sentimento de culpa, eu andava tão dividida que já não sabia o que fazer. Não sou nem nunca fui fundamentalista, mas sou a favor da amamentação. E eu queria mesmo essa experiência, por isso continuava a adiar a decisão de parar. Não que esperasse que se ia tornar bom, já não acreditava nisso, mas apenas porque também tinha medo de parar de um dia para o outro. O início deste processo é muito delicado, e enquanto a produção não estabiliza e encontra um ritmo tudo é imprevisível. 
Então, por medo dos comprimidos e de piorar a situação, e porque já conhecia aquela face da luta, dei por mim neste piloto automático de sofrimento prolongado qual mártir da maternidade.
(eu sei, eu sei! Hormonas!)

O meu tipping point foi quando me meti nas urgências para reavaliar a situação da mastite. Por esta altura já tinha começado a complementar a alimentação do pequeno com leite artificial, que ajudou bastante a minimizar os períodos de dor e desconforto e tirou-me a responsabilidade de ser a única pessoa a ter de alimentar o Gonçalo.
Peguei em mim num domingo de manhã e lá fui enfiar-me num hospital da luz semi-deserto. Mudaram-me a medicação, e chamaram uma enfermeira que me explicou como massajar o peito e drenou uma boa parte do leite parado. Os nódulos não doíam nesta fase, mas eram enormes, sentia-me deformada. Mas ela lá me ajudou a reduzir o volume e o desconforto. Aprendi bastante com ela. As coisas iam mudar, ou pelo menos já percebia um pouco mais do funcionamento da coisa. 
Ainda fui à farmácia e quando regressei a casa, o Gonçalo tinha dormido o tempo todo, tinha acordado há pouco e não tinha pedido leite, parecia que estava à minha espera. Achei que era um bom prenúncio para a última oportunidade que daria à coisa. Quase posso jurar que não me doeu dar-lhe de mamar dessa vez. E em 3 dias estava visivelmente melhor. Ao fim de uma semana não tinha dor nem nódulos (apenas uma parte da pele a secar e enxertar-se a si própria por causa do (des)inchaço). Já não chorava, e apesar de odiar ficar parada tanto tempo a amamentar a cria, já tudo parecia mais natural, apenas realmente chato.

Mais tarde, ao falar com a enfermeira do centro de saúde contei-lhe que desconfiava que a bomba do leite tinha sido a causadora da mastite, e ela confirmou que usar bomba eléctrica em fases iniciais era muito complicado, porque estimulava demasiado a produção de leite e podia dar azo a estas complicações. Já fica a nota para as/os interessadas. Tenham atenção a estas coisas!

E por hoje é tudo.
Na terceira (e última) parte seguem mais alguns desafios, e a parte em que eu comecei a gostar disto.


Monday, August 13, 2018

Anatomia de uma festa de aniversário.


Vou ser sincera, não sei mesmo como consegui por a uma festa de anos a andar. Bem, até sei, fui mesmo organizadinha e o mais essencial, tive ajuda, que mesmo com percalços pelo meio, atrasos, esquecimentos e breves desorientações, idas e vindas, esteve sempre lá a ajudar-me a por a festa de pé. Quando chegaram os primeiros convidados (os avós e tia), estávamos ainda a comer pizza que encomendámos para o espaço da festa e só tínhamos meia mesa posta, mas a coisa foi-se compondo. E agora que me começo a afastar da loucura do último fim-de-semana é que percebo que a coisa até correu lindamente e, atrever-me-ei a dizê-lo?, foi um sucesso.

A verdade é que me lancei numa empreitada doida. Queria uma festa como imaginava, com uma imagem bonita (defeito profissional, desculpem lá), que pudesse reproduzir na festa e queria fazer eu as coisas e a comida. Estava morta pela oportunidade de fazer um pequeno projecto e quis muito agarrar esta oportunidade. Só tenho uma oportunidade para o primeiro ano de um filho…
Passo um...Location, location, location!
A primeira coisa que tinha em mente era o espaço da festa. Uma amiga minha fez duas festas para o filho dela por aqui e eu apaixonei-me. Para além do espaço ser lindo, é próximo de casa, temos uma liberdade total para usar coisas, para reorganizar e decorar ao nosso gosto, tem uma mesa óptima e espaçosa, louça bonita, tudo de bom. E a um valor aceitável.
Passo dois... tema e afins
Outra coisa que eu queria mesmo mesmo mesmo, era uma espécie de infográfico informativo do primeiro ano da vida do Gonçalo (tinha um exemplo donde tirei a inspiração no meu Pinterest, mas parece que desapareceu para grande pena minha). Não tinha brindes e doces porque não era bem uma festa de crianças (e eu na verdade não gosto muito disso), mas queria algo que pudesse ser engraçado e diferente e que reflectisse o Gonçalo. Então fiz uma versão à minha maneira e dentro do tema, que deu para dois posters A3 e também fiz pequenos postais A5 para quem quisesse, levar. Acho que gostaram.
O tema em si foi mais difícil de decidir. Achava eu que iria para os animais da selva ou assim, visto que o puto até é leão de signo… Mas comecei a ver o tema repetido até à exaustão no Pinterest (claro que criei um board de inspiração tipo, uns 3 meses antes) e comecei a desanimar. Não que esperasse inventar a roda nesta fase, mas queria algo que pudesse adaptar melhor aos nossos gostos e que fosse um pouquinho diferente do que vemos para o primeiro ano. Então deparámo-nos com este post e a partir daqui vimos que queríamos mesmo o tema “little man”, e com inspiração nos ícones hipsters, as coisas ganharam forma. Acrescentei umas pinceladas de aguarela made by me e a coisa estava lançada. Serviu para o convite no facebook, para etiquetas de comida assim como outras pequenas peças espalhadas e ainda umas peças comestíveis (mais sobre isto à frente). Até a roupa do Gonçalo estava pensada para o tema (mas o calor não deixou que usássemos a camisa e o laço).

Um detalhe que quis acrescentar e que foi um pouco o flop, mas vá, numa festa de um bebé com crianças aos pulos é sempre difícil de pedir essa disponibilidade, foi o pequeno livro de dedicatórias. Disponibilizei canetas e carimbos para poderem desenhar e escrever. Poucos foram os que escreveram, mas vou agora dedicar-me a perseguir os que não o fizeram. E sim, no fim, quero escrever eu, quando encontrar a paz e o sossego para o poder fazer com calma. Gostava de repetir todos os anos este passo, ou fazer algo semelhante para que o Gonçalo tenha sempre as palavras e encorajamento da família e amigos. É tão fácil perdermo-nos nas rotinas e nas complicações de todos os dias e sentirmo-nos longe de todos, acho que estes artifícios nos lembram o quanto gostamos das pessoas e elas de nós. Por isso é que gosto tanto de escrever cartas, seja sobre o que for.


Passo três... O que comer
Quanto às comidas, também não inventei grande coisa. Claro que adoraria ter entrado numa onda mais sugar/gluten free mas não havia tempo para grandes invenções. Havia sempre as típicas pipocas, batatas fritas, sandes, espetadas de fruta e salgados. Dediquei-me essencialmente em fazer algumas coisas de raíz e com a ajuda da bimby fiz um salame de dois chocolates, bolo brigadeiro, bolo de anos e limonada. A minha irmã pelo seu turno fez gelatina e cozinhou os folhados de salsicha que tinha preparado e congelado de antemão. E acreditem, isto já foi trabalho suficiente. O que deu um  ar de sua graça e que fiz mesmo muita questão, foi ter impressões personalizadas da imagem da festa em bolachas pela Oficina da Flor. Desde os tempos do Sweet Rebel Bride que andava fisgada para fazer umas bolachinhas personalizadas, e por pouco ia perdendo a oportunidade porque estão em tempo de férias. Mas lá consegui imprimir com antecedência, e colei eu em bolachinhas para não se perder o efeito (usei chocolate branco derretido). Não ficou nada mau e dá sempre aquele toque à mesa, para além de que eram deliciosas.

O bolo

Não há muito a dizer sobre isto. Confesso que adoraria ter tido um bolo alto (teria de fazer duas vezes a receita), mas não tive tempo para mais. Na minha ideia queria um bolo muito simples, com uma decoração simples também (acabei por fazer o cake topper, como podem ver na primeira foto deste post, com bandeirolas a reproduzir a imagem que criei) e uma vela azul que corri tudo para a encontrar, finalmente, na tiger - abençoada!

Queria um bolo relativamente simples e meti na cabeça que teria de ter cobertura de queijo-creme, talvez para poder dar a provar ao Gonçalo sem grandes culpas, se bem que na hora H ele nem quis saber. Encontrei esta receita e devo dizer... nunca fiz um bolo tão bom. Não era muito grande, é certo, mas tendo em conta o lanche, nunca pensei que toda a gente o adorasse tanto a pontos de desaparecer por completo. Eu só comi umas duas garfadas, em breve terei de o fazer de novo para o devorar conveniente.
Ainda consegui que toda a "loiça" descartável usada no bolo fosse amiga do ambiente , assim como usei apenas palhinhas de papel (não havia budget para mais, mas damos passinhos pequenos e já não está tudo perdido), tudo do Jumbo. Vejam este post da Helena, foi lá que descobri.

Fazer o bolo, enfeitá-lo com a decoração feita por mim e ainda poder fazer desse momento um momeno sustentável, foi uma das sensações mais incríveis nesta experiência toda. Estava tão parecido com a minha imaginação, e saber que toda a gente adorou... Enfim, não sei explicar.

Escrevo-vos este post completamente de rastos, numa segunda-feira quase sem dormir, mas muito feliz de ver as ideias materializadas, de ver o meu filho a crescer sob o olhar de todos os que nos são queridos,e de perceber que eu consigo fazer tudo a que me proponho, que ainda consigo concretizar, se calhar com mais gana do que antes.  
Eu ainda sou eu, e também sou mãe.
Há um ano.
Caraças!

Thursday, August 9, 2018

Reflexões sobre sonhar e querer fazer. Ou querer sonhar.

Quando era pequena, queria viver como a Ana dos cabelos ruivos, numa quinta idílica no cenário maravilhoso que era o frontão verde. Queria uma vida rodeada de paisagens naturais, caminhos ladeados de árvores e flores até à escola ou até à casa da minha melhor amiga. Queria uma quinta com animais, ovos frescos todas as manhãs, leite acabado de ordenhar da vaca, viver uma vida mais lenta, ter tempo e espaço para escrever e desenhar e pintar.

Eu identificava-me plenamente com a Ana, acima de tudo no facto de ser uma cabeça no ar que vive a vida presa à imaginação e muito pouco na realidade.
E é engraçado porque já dei mil voltas, mas acho que eu continuo a ser assim.
Só que a um outro nível. O nível das histórias de encantar das redes sociais.

Já me deixei deslumbrar por tudo isso, e tempos houve em que adoraria ser como aquelas bloggers que transcenderam e ganharam notoriedade e dinheiro e têm um emprego de sonho a trabalhar de pijama no sofá. Já achei que tinha de aprender a costurar, a tricotar, a pintar aguarela, gestão de redes sociais, fotografia, escrita criativa. E fiz muitas destas coisas cheia de vontade e intenção. Comprei cursos online, e-books, alimentei-me desta informação, entusiasmada. Ainda hoje tenho uns quantos por fazer, porque convenhamos... não há tempo para tudo.

Mas sinto por vezes que nunca me entreguei verdadeiramente a nada. Ainda exploro alguns destes meios criativos (sendo que a escrita e o desenho/pintura sempre foi o meu foco principal porque sempre adorei fazer) e acho que me vai apetecer sempre dedicar-me um pouco a tudo isto. Vou sempre gostar de trabalhos manuais e de fotografia e de escrever muito. E não há mal em gostar de tudo e ser interessada em muita coisa. Só acho que insisti nisto pelos princípios errados. Acho que queria a vida de algumas pessoas que seguia. 

Recentemente libertei-me da ideia de que este terá de ser um objectivo profissional, ou que me iria fazer mudar de vida. Sim, a mudança vem, mas há muitas formas de mudar. A mim tem-me ajudado a repensar, a procurar-me, e não tanto “isto agora tem de me preencher enquanto pessoa, senão não serei válida”. 

Tem sido um caminho algo frustrante este. Mas a verdade é que antes de procurar lá fora o que quero, deveria olhar para dentro de mim. E muitas vezes andei deslumbrada com o mundo que se vive do outro lado do ecrã, como se fosse o mundo da Ana dos cabelos ruivos. Como se, apesar da beleza, esse mundo não escondesse tristeza, frustração, solidão… A Ana era tão imaginativa porque precisava de um escape da sua vida de órfã. Eu sempre fui muito introvertida e não me dei muito bem com as convenções e com o mundo fora de portas, pelo que também vivia num mundo de fantasia.

Por isso agora quero mesmo é olhar para mim, para a minha vida, para os meus desejos e perceber o que quero, o que é para mim. E fazer coisas, do princípio ao fim. Devo-o a mim mesma, e aos meus. Mesmo que seja aborrecido ou sem objectivos. Será sempre especial porque é meu.

Tuesday, August 7, 2018

Amamãetação, ou como isto custa como o raio - parte 1

Queria muito falar deste tema, e agora que o meu miúdo tem quase um ano e eu levo quase um ano disto, achei que era interessante fazê-lo finalmente. Sei que mencionei contar a história do meu parto, mas acho que há ali pouco para dizer, portanto tenho alguns posts dedicados à minha experiência neste tema. Espero que gostem, se não gostarem... este blog volta à programação normal dentro de instantes.

Há tempos fizeram-me uma pergunta interessante… qual o momento mais marcante e mais intenso em relação à gravidez e consequente maternidade.

Quase um ano depois de parir, há tantos momentos maravilhosos e intensos, que à partida diria que a escolha seria difícil, mas quando fiz um rápido check mental ao último ano, a resposta acabou por ser muito simples. A amamentação. Todo o processo da amamentação. Ainda hoje é algo que me transcende e me faz questionar muita coisa, ainda hoje leio e informo-me e pergunto-me se estarei a fazer bem. 

Há tempos li no Observador uma série de reportagens acerca da amamentação (a propósito da prestação dos Estados Unidos na Assembleia da OMS em relação à promoção e protecção da amamentação) e numa delas, a consultora Cristina Pincho disse aquilo que gostaria de ter sabido antes “É mais importante a mulher preparar-se para a amamentação do que para o parto”. 

Não é à toa que este é um assunto que dá pano para mangas. Há TANTA coisa, tanta área cinzenta, tantas complicações e ainda chama tanta atenção que uma pessoa nunca consegue ouvir o seu instinto.

Eu fui um pouco parva. 
Não quis aulas de preparação para o parto. Sempre fui muito pragmática em relação ao parto, nunca questionei ou idealizei esse momento, até porque o pai da criança não ficaria comigo. Ele não se sentia confortável e eu, sinceramente, também não. Por isso sabia que queria seguir as indicações que me dessem no hospital, que confiava no hospital que escolhi, e que me ensinariam os básicos. Vi alguns vídeos explicativos de cuidados com o bebé e confiei que o meu instinto me ajudaria a encontrar o meu caminho quando estivesse na dúvida. E também temos família que pode apoiar e ajudar.

Quanto à família estamos bem, claro que há palpites e opiniões sobre tudo, mas eu sou muito tranquila quanto a isso. Podem dizer tudo à vontade, eu retiro o que faz sentido para mim e o que não faz, ponho de parte sem criticar ou me chatear (curiosamente achei que este tipo de confiança ia demorar a construir, mas foi mais rápido do que julguei). 
No resto, errei redondamente. O meu parto não foi lindo, mas também não foi traumatizante. Acho que estava preparada para que não fosse nenhum momento transcendental, uma vez que imaginava que talvez tivesse uma experiência parecida com a da minha mãe, e por isso encarei muito bem as 28 horas de trabalho de parto frustrado para culminar na cesariana. 

Não estava era preparada para ser tão largada à minha conta quando saí do bloco de partos. Tive inclusive uma auxiliar que foi altamente brusca comigo quando perguntei se me ajudavam nos cuidados iniciais com o Gonçalo, ao que ela respondeu “a gente não faz nada, quem trata é a senhora!” e eu, agrafada e ainda sem sensibilidade nas pernas a dizer incrédula “mas acabei de fazer uma cesariana, alguém tem de me ajudar porque nem sequer me consigo por em pé nem pegar no bebé…”.

Enfim. Acreditem que hoje já tenho mais noção do género de parto que gostaria de ter, e se se der o acaso de ter outro filho, há coisas que vou definir de antemão sim. Houve algumas pessoas que me trataram como gado (inclusive a médica de serviço), o que valeu foi que outras eram extraordinárias.

Outra coisa que aprendi é que o instinto foge para parte incerta na confusão das hormonas. Esse foi mesmo o meu maior erro e aquilo que ninguém me explicou. Uma pessoa sabe que vai deixar de ter vida, mas não espera deixar de ter identidade, por muito que digam que te começam a tratar por “mãe”, não é bem aí que acontece. É quando és engolida pelas necessidades do pequeno ser que puseste no mundo. É quando percebes que tu és a primeira casa dele e a sobrevivência dele depende de ti. É avassalador. Deixas de ser tudo o que eras antes para estares ali para ele. Lembro-me que na noite do nascimento dele o meu moço saiu do Hospital e foi ver o jogo do Benfica com um amigo (não me oponho, claro, ele não podia ficar comigo), mas eu também queria ir ver o jogo, comer tremoços e beber cerveja e não podia. 

Mas estou a desviar-me do assunto. 
A amamentação começou com o pé direito. Acho que começa quase sempre. Ele sai da barriga e só quer mamar. Eu confesso, andava doidinha para perceber qual a sensação. A minha mãe dizia que tinha adorado a experiência, e que era como se nos fizessem cócegas por dentro. No início era mesmo assim. Muito simples e imediato, tudo muito animal, muito óbvio. Muito bonito.

Só que o Gonçalo teve de ir para a incubadora. Esteve 3 dias longe de mim. E isso baralhou tudo. Sonda no nariz, leite artificial, começar a tirar colostro com bomba logo no início para complementar a alimentação artificial… e por muito que as enfermeiras (abençoadas) tentassem pô-lo a mamar, era frustrante. Um bebé na incubadora já não sabe se está na barriga ou não, mamar não é a primeira coisa que lhes apetece, especialmente se o estômago se vai enchendo sem esforço. Tentei várias posições, mamilos de silicone, e ele por vezes mamava e até pegava bem, mas não durava muito. Quando teve alta ainda não sabia mamar, mas diziam que estava bem encaminhado. A pediatra que lhe deu a alta inclusive deu-me uma série de dicas vagas, e o nome da clínica onde faz acompanhamento e lá fui eu, sem ideia de como se fazia isto, com um filho que foi alimentado por estranhos durante dias, que bebia o meu leite em exclusivo mas num biberão (ainda por cima daqueles descartáveis do hospital), que supostamente é o inimigo da amamentação. 

Felizmente no meio disto tudo, eu não tive sintomas esquisitos da subida do leite ou afins, e a produção foi aumentando sem grandes complicações e isto dava-me esperança que pelo menos lhe pudesse dar o meu leite. Mas confesso, partia-me o coração que o meu filho não conseguisse mamar no meu peito.

As minhas tentativas eram trapalhonas e frustradas, o Gonçalo pegava bem mas cansava-se, chorava, frustrava-se. Mas eu insistia, ainda achava que iria conseguir. Partiu-me o coração quando o meu companheiro me disse que eu devia habituar-me à ideia de ter de tirar leite com a bomba, se quisesse dar de mamar. Porque até à data era mesmo a única coisa que funcionava. Já tinha desistido dos bicos de silicone porque me feriram. 
E eu ia-me mentalizando enquanto bombeava leite às 4h da manhã, a ler furiosamente artigos sobre amamentação e a receber conselhos de mães que me diziam que isto não é mesmo fácil, mas não era impossível. E a pensar que talvez não fosse impossível para os outros, mas parecia que ia ser para mim.

Porque raio eu queria tanto dar de mamar?
Por dois motivos muito simples… um, é biológico, eu tinha curiosidade e tinha uma vontade imensa de cumprir esse propósito. Acho incrível. Não o vejo como uma coisa de beleza transcendente, nem como uma coisa animal desvairada. A amamentação é algo absolutamente natural e queria muito que fosse tranquila. 

E o outro motivo era precisamente pelo que a minha mãe dizia, ela tinha adorado, lembram-se? Talvez procurasse algo mais para me sentir ainda mais próxima dela. É que hoje, 12 anos passados da sua morte, depois de crescer e viver mil experiências que me moldaram na pessoa que sou, ainda sigo as suas palavras como verdades universais.
E não sei se terei mais filhos, então tenho de agarrar esta oportunidade e não desistir, ainda não.

Um belo dia, tinha o Gonçalo uma semana e pouco, experimentei dar de mamar deitada. E assim sem mais nem menos, ele pegou, mamou sem dificuldade, até se fartar e adormecer. Foi o meu momento de triunfo. Sem ajudas, sem adereços extra, e até sem grande esforço cheguei lá. Ainda cheguei a levar a bomba comigo no início, mas rapidamente a dispensei, não tinha sido um acaso isolado, ele de facto estava a mamar por ele próprio. E pronto! Já estamos bem encaminhados, vamos a isso.


Era bom não era? Pois, ainda tive mais algumas aventuras, aliás, ainda nem cheguei à pior parte…
(Ainda aí estão? Não acredito que tiveram a paciência de ler isto tudo. Ainda vêm mais posts sobre este assunto em breve)

Thursday, August 2, 2018

Quando alguém morre, aqueles momentos irreversíveis em que a respiração se perde, assemelham-se-me ao momento em que um barco perde os remos e fica à deriva. Quando a noticia de uma morte chega, faço as contas de há quantos minutos a pessoa deixou de viver, e está ali tão perto, o momento acaba de passar mas quase que o poderíamos agarrar e talvez se conseguisse salvar aquela vida suspensa. Um remo perde-se e flutua e por momentos quase lhe tocamos mas ele foge do nosso alcance.
É assim a morte, a imensa crueldade da morte. Não interessa se estamos à espera ou se é uma surpresa trágica. Há um momento em que tudo muda, e não podemos fazer nada para o mudar de volta.

A realidade mudou esta semana. Não se apoquentem por mim, não é comigo ou com a minha família. Mas dói muito porque tenho um carinho especial por uma das pessoas que mais sofre. E é como se fosse connosco. A morte cansa. Destroça quem cá fica, recolhe pedaços, deixa perguntas no ar que nunca terão resposta. 

Dirão os mais pragmáticos que a vida é mesmo assim, que faz parte. E faz. E eu própria penso nisso para amenizar a dor. Não podemos fazer nada para contrariar, para evitar ou esquecer. Só viver o presente, até ao detalhe mais aborrecido e agradecer cada inspiração de ar fresco, cada raio escaldante de sol no corpo.





Photo by Lucas Silva Pinheiro Santos on Unsplash

Há mortes que não deviam acontecer. Há dores que não deveriam ser vividas. 
À M., nunca será esquecida.

Wednesday, August 1, 2018

7 anos de caixinha de Pandora

Photo by Gades Photography on Unsplash

Dizem que 7 é aquele número mágico, sortudo, cheio de significado.
Nunca liguei muito a números, mas sem dúvida que é uma bela idade para este blog. Já escrevo blogs há13 anos, e este provavelmente é o mais duradouro e feliz. Este blog acompanhou-me nas alturas mais importantes da vida, fiz 30 anos com este blog, separei-me, encontrei amor, fui mãe, apaixonei-me pelo meu emprego, cansei-me, mudei de emprego, procurei alternativas aos empregos, cansei-me, viajei, desenhei, pintei, inspirei-me e procurei inspirar, perdi-me, desorientei-me... e acho que cheguei a uma altura especialmente interessante, em que me estou a encontrar. Tudo aqui, tudo por perto. 
Ando a magicar algumas mudanças aos poucos, e gosto da ideia de o desenvolver devagarinho e sem pressa. O meu cantinho pessoal e sossegado. 
Que já tem 7 anos. E em 7 anos tanto mudou, o planeta girou 7 vezes à volta do sol. Que venham mais algumas voltas e novos desafios e aventuras. Ou a rotina chata do dia-a-dia. Venha o que vier, eu cá continuo.
Obrigada por estarem aí. 

Thursday, July 12, 2018

Vamos falar de mudanças?


Há dias falava que me custava mudar. Mas também que precisava de o fazer o quanto antes. Pelo meu corpo voltar a ser meu e por me sentir identificada comigo mesma quando me olho ao espelho.

Uma coisa eu tenho de dizer antes de avançar mais... ainda tenho uma admiração enorme pelo meu corpo e pelo que ele criou, mas também sei que tenho sido negligente por isso mesmo. Ainda não encontrei o equilíbrio mas estou já em processo, e sei que com isto iniciei uma longa viagem de autoconhecimento e de reconhecimento de mim mesma.

Dizia eu que precisava de me reconhecer. Fiquei com a sensação que a maternidade me despojou de tudo e me vai devolvendo aos poucos o tempo, a clareza, a disponibilidade e a vontade de eu ser eu própria. Eu própria, mas agora mãe.
Quando escrevi esse post, uma boa parte de mim lutava para não me deitar abaixo pelo meu desleixo, lutava para não me sobrecarregar de críticas e não me chamar nomes feios. Não quero odiar-me, já me deixei disso, mas também não andava propriamente compreensiva comigo própria.
Só sei que olhava ao espelho e não me podia ver. Não sei se são as olheiras destes meses, se a pele está mais baça e sem graça, se ganhei rugas no canto dos olhos, a verdade é que algo não estava bem.

Talvez por isso não conseguisse ser tolerante comigo mesma. Olhava ao espelho e sentia que precisava de mudar algo. Não podia ser o peso, não já, ia demorar demasiado tempo. Precisava de algo mais rápido. E com os constrangimentos de ter um bebé que se agarra a meu cabelo para se equilibrar como se eu fosse a Rapunzel, de ter semeados cabelos enormes pela casa toda, de estar sempre a desviar cabelo da cara do Gonçalo quando o amamentava, comecei a alimentar a ideia de cortar o cabelo um pouco mais curto, de experimentar um corte novo, de voltar a ter alguma liberdade de movimentos e menos tempo à espera que seque depois de o lavar. Afinal, mudar de corte já é uma mudança grande na vida.

Esta semana decidi também que estava na altura de juntar duas decisões de uma vez só e aproveitava a vontade de dar um corte grande para a transformar num corte radical e doar o meu cabelo a uma organização que o recolha para fazer perucas a crianças com cancro.
Não é muito no mar das prioridades da doença, mas é algo que sempre quis fazer. E confesso, não é fácil de tomar a decisão e não é fácil ver o cabelo a ser trilhado daquela forma.

Mas é incrivelmente libertador, e nem eu sabia do quanto precisava disto. Estou extremamente satisfeita comigo mesma porque pela primeira vez em muito tempo fiz finalmente algo, dei o passo, dois passos num só e senti-me mais capaz e veja-se... estou diferente ao espelho.
Mudei. E foi tão mais simples do que esperava.

Tuesday, July 10, 2018

Diário de um pseudo-detox digital (parte 3)

Considerações e resoluções finais

A experiência chegou ao fim. Hoje de manhã recuperei as redes e naveguei um pouco, o Gonçalo estava a dormir e não havendo tanto trânsito, que pude ficar em casa mais tempo, tomar o pequeno-almoço, andar um pouco pelo Face e pelo Insta, etc... continua tudo na mesma.

Muito honestamente, acho que pouco adiantou. Foi uma experiência interessante, sei que sobrevivo sem as redes sociais, mas sabia que estes dias não iam propriamente “curar” a minha dependência, que acho que não é das redes sociais em si, mas uma necessidade minha de escapismo constante. 

Eu devo andar aborrecida, desmotivada, cansada, não sei, mas sinto que tenho de consumir os recursos todos de uma vez só porque depois tenho de ser mãe e não tenho tempo para as coisas e quando saio do trabalho acabaram os meus momentos (o que já não é bem verdade, porque ele já vai dando noites melhores e eu já consigo tirar um bocadinho para ler e ver séries). 

Mas tenho mesmo de parar com isto e ser mais consciente do que faço, porque este automatismo e constante dispersar de atenção também me consome a mim. 

Quero viver uma coisa de cada vez, e já agora com alguma calma e tranquilidade, e isso passa mais por mim do que pelo telefone. Eu tenho mesmo de assumir e por em prática acções que me impeçam de estar neste vaivém constante de informação, e isso vai para além das redes sociais. 
No entanto, e porque preciso de começar por algum lado, começo por aqui. E para além das já afamadas medidas como desligar as notificações (que já fazia antes), restringir o uso do telefone às refeições e durante a noite (que vou começar a aplicar com mais afinco), deixar de seguir contas (que é um processo que nunca mais acaba, por isso vai-se fazendo), vou tomar UMA medida bastante importante, que é o que o meu homem costuma fazer e que a mim já está a desencorajar-me de passar o dia a espreitar o telefone… fazer log off sempre que saio da aplicação. Porque se tenho de voltar a logar-me, vou ter de me dar ao trabalho de escrever o meu user e password, e isso não é um processo automático como tocar e aceder. E acabo por não o fazer.

Às vezes tentar a abordagem preguiçosa pode funcionar nestes casos. Comigo já leva meio dia e estou a portar-me lindamente. Vá, talvez os 5 dias tenham tido algum efeito também em mim, mas agora é fazer por formar um hábito bom de olhar mais em volta e menos para o ecrã. May the force be with me.

Monday, July 9, 2018

Diário de um pseudo detox-digital (parte 2)

Um fim-de-semana completamente off

Ok, talvez tenha tido mais sorte no fim-de-semana, que foi passado com as duas crianças, o que implica mais movimento, mais agitação, mais entretenimento e muito menos tempo para olhar para o telefone. Acho que o meu filho olhou mais vezes do que eu para o telefone, entre vídeos da Xana toc-toc e os caricas. Não é propriamente batota mas sem dúvida que ajudou muitíssimo a passar o tempo offline.

No entanto na sexta-feira, fui ao aeroporto buscar o meu moço, munida de um livro para nem pensar em espreitar mais do telefone do que o tracker do avião enquanto esperava. Li um capítulo com algum custo porque, convenhamos, os aeroportos são os locais mais espectaculares para uma pessoa se distrair. E eu adoro ver as pessoas a chegar e imaginar as suas histórias. Vi o reencontro inesperado de algumas amigas, famílias a chegar de férias com um ar descontraído, homens de negócios, jovens a chegar a Lisboa para se divertirem, entre eles uma despedida de solteira com uma noiva que chega de véu com duas pilas rosa e acena ao melhor estilo Rainha Isabel II. Dei por mim a sorrir e a vibrar com estas histórias que não eram as minhas. A porta das chegadas do Aeroporto é dos sítios mais felizes que conheço. Vagueei alegremente nesta realidade enquanto procurava o meu rosto na multidão. E não senti pingo de necessidade de consultar ou publicar nas redes sociais. Mas pensava em escrever aqui no blog, sim.

Porque a necessidade da partilha continua a existir. E sabe bem.

A boa notícia é que consulto o telefone MUITO menos vezes. A má é que com uma ida à praia pelo meio e algumas fotos tiradas no momento, é bem possível que o meu excelentíssimo companheiro tenha publicado algo no Instagram e eu estou a morder-me para lá ir espreitar. Não há volta a dar, ainda gosto bastante desta rede, mas aquele recanto privado, nosso, familiar. Não o instagram feira-das-vaidades que se vê com cada vez mais frequência. De resto, sem twitter e sem facebook a coisa até se faz bem, mas acho que 5 dias pouco ou nada me vão adiantar. 
Sinto que preciso de algumas medidas mais definitivas da coisa, mas ainda não sei bem quais. No entanto já percebi que aprendi muito e que estando a finalizar o período de provação, sei que terei de criar regras, limpar muito entulho e observar melhor o que pretendo das redes sociais.

Mas acima de tudo, estou contente por estar a sobreviver a este desafio.

Friday, July 6, 2018

Diário de um pseudo-detox digital

Um dia e meio, dois dias

Antes de dormir, no dia 4 de julho, pelas 23h, apaguei todas as aplicações de redes sociais do telemóvel (bem, quase todas, deixei as que não me causam tanta dependência): facebook, gestor de páginas do facebooktwitter e instagram. Apaguei também o snapchat, que raramente uso (aliás, estou mesmo à beira de fechar a conta – se calhar é desta), numa de não me deixar tentar. Não apaguei o LinkedIn, o Bloglovin nem o Goodreads porque raramente lá vou. Nem o Pinterest porque uso para trabalhar e nesta fase para procurar ideias para a festa de aniversário do ano. Mas em relação ao LinkedIn, no trabalho tenho tendência a abrir a página, pelo que fiz o compromisso comigo mesma de não abrir nestes dias- não custa assim tanto, se bem que sinto falta de ler um artigo aqui e acolá.

E assim ontem acordei para um mundo sem redes sociais. Na verdade não me custou particularmente à primeira. Não tenho tempo para correr as redes logo de manhã, com o meu pequeno humano a acordar mais ou menos ao mesmo tempo que eu. 
Reduzi a minha rotina matinal ao essencial para não ter de perder muito tempo: levantar, vestir-me, lavar a cara e os dentes, preparar marmitas (minha e dele), prepará-lo. Se puder, coloco a tralha toda no carro antes de ir buscar a criança, se não puder, carrego tralha e criança junta (isto conta como musculação?) e vamos lá. Portanto o telemóvel só me serve para controlar as horas (tenho mesmo de comprar pilhas para os meus relógios e voltar a usá-los – talvez seja mais um incentivo a olhar menos para o ecrã).

O telemóvel começa a fazer-me falta quando deixo a criança na tia avó e faço o meu percurso de 5-7 minutos a pé até ao trabalho. Normalmente ando pelo bairro e vou espreitando o twitter ou o instagram. Paro no semáforo e vou verificando as notificações diárias do facebook. Não fiz nada disso. Não havia lá nada para ver. Então tratei de ir caminhando com calma até ao trabalho sem olhar mais para o telefone. Eu e os meus pensamentos. E sabe bem deixá-los desfilar pela cabeça sem os calar ou ir postá-los numa qualquer rede social. Apenas deixá-los ir e vir. É assim uma espécie de quase meditação.

Durante o dia, e tendo em conta que o trabalho está mais escasso nesta época, a tentação para espreitar as redes é maior, mas foi um dia de reuniões e coisas para fazer, pelo que não dei pela falta. Apenas acontecia por vezes pegar no telefone e olhar para a pasta das redes sociais e ver que não estava lá a trilogia de redes que me sugam o tempo, e desistia. Subsistia um sentimento de ausência, mas não me senti ansiosa nem com fomo, estranhamente, mas estava muito mais solícita para responder a mensagens e a verificar mais vezes o e-mail  (estava numa troca importante de e-mails, não perdi mais tempo a ver as newsletters desnecessárias do costume, aliás, ando a desfazer-me de uma data de newsletters que não me interessam para não ter a caixa sempre cheia).

À noite tive o ipad (ainda com as aplicações) disponível, mas limitei-me a ver um pouco de tv, a começar uma série no Netflix (esta), e a ler. Quando me deitei limitei-me a por o despertador no telemóvel, uma vez que não havia mais nada para ver. Li mais um pouco e adormeci tranquila.
As noites ainda são muito imprevisíveis devido aos despertares do meu filho e à amamentação. Eu já estou muito habituada ao ritmo e muitas vezes dou por mim acordada a meio da noite sem sono. É nesta altura que tenho o péssimo hábito de ir verificar o facebook e o instagram (e se tiver notificações, também espreito o twitter). Mas não dava, o resto do mundo estava em silêncio e adormecido. Era estranho. Ainda ponderei manter a luz acesa mais um tempo e ler, mas não queria incomodar. Apaguei a luz a pensar que ia ficar um bom bocado a olhar para o vazio, mas não, adormeci num ápice. Isto para mim foi mesmo uma descoberta. Toda a minha vida foi povoada de insónias e sonos leves e despertares inesperados. Já dei muita volta na cama sem conseguir pregar olho, e nesta fase pura e simplesmente nem dou hipótese ao sono, vou logo adiar essa possibilidade com luz artificial e conteúdos desnecessários, com a desculpa que eu sou mesmo assim, e dali a alguns minutos já me dá o sono, tenho é de me entreter…blábláblá

Pela primeira vez não tinha outra hipótese senão dormir. E pasme-se, dormi bem (ainda que por pouco tempo, claro). 

Durante muito tempo achava que era imune àquilo que se dizia de manter o telefone longe do quarto, porque eu já não o usava mesmo muito e com a criança a acordar as noites eram mais complicadas e precisava de ter o telemóvel e as redes àmão para combater esse isolamento de mãe, mas… isso é uma grande treta. Se não conseguir dormir, levanto-me e vou ler ou seja o que for para a sala. Ou deixo-me ficar porque pelos vistos… eu adormeço sim!

Ainda dou por mim ainda a espreitar o telemóvel, a olhar para os espaços vazios onde antes estavam as aplicações, a verificar o e-mail. Quero que a frequência diminua mas ainda não noto diferença. 
Mas sinto que quero aproveitar os momentos. À hora de almoço esperei por uma colega e decidi sentar-me ao sol à porta do escritório. Vi apenas um e-mail da minha irmã e fiquei ali a aproveitar o calor e o momento. Pus um pouco de protector solar, vi as pessoas a passar, as conversas ao longe, toda uma agitação e eu parada e tranquila. E lá está, o que me surpreendeu foi mesmo a espontaneidade e facilidade com que o bem-estar nos invade se simplesmente procurarmos o que nos faz sentir bem e usufruirmos disso sem peso e sem culpas.

Algo me diz que esta experiência vai ser interessante. 
Para já está a ser bastante bom sentir que conscientemente vou aproveitar os momentos vazios para os viver realmente e não me perder nas distracções digitais. Em breve conto mais desta experiência.

Wednesday, July 4, 2018

Birthday girl

Há 20 anos tinha acabado de fazer 16 anos. Não me lembro grande coisa dessa idade, além de ser a bonita idade que quase todas as princesas da Disney têm (e casam-se e tal) e na altura estar no secundário a sentir-me extremamente feliz por estar numa turma de artes e finalmente me sentir integrada em algo, sendo eu própria, sem filtros e sem hesitações.
Lembro-me que aos 16 anos estava a começar a sentir-me muito bem comigo mesma. Anos antes tinha sido gozada, limitada, travada. Mas apesar de ser uma pessoa respeitosa e aceitar o ambiente onde me inseria, nunca perdi a esperança de que um dia eu ia sentir que pertencia. Nesse aspecto a turma de artes do secundário foi mesmo o lugar onde fui mais bem recebida e onde aprendi muito a tantos níveis. A partir daí deixei de querer olhar em frente à procura de um lugar que me recebesse pois já me sentia em casa. 
Hoje em dia nem tudo me serve como uma luva. Há coisas que custam, que desajustam., a rotina impõe resoluções diárias, austeridade e muito cansaço. Já não estou nesse ponto em que sentia que o mundo é a minha ostra. Mas ainda me sinto com esse entusiasmo juvenil.
Dizer que há 20 anos tinha 16 anos é estranho e desajustado. Ainda me sinto aquela adolescente tantas vezes.  Aquele é o meu eu verdadeiro, impolido pelas durezas da vida. Mas já passaram 20 anos desde essa altura. Toda uma vida, ou várias.
Ontem falava com uma amiga por mensagem e estávamos ambas espantadas por estarmos tão perto dos 40, ao que eu lhe disse que só temos 40 anos quando lá chegarmos. Até aos 39 anos e 364 dias. Até lá ainda estamos nos trintas, e devemos aproveitá-los ao máximo. 
Não vamos ser mais jovens do que somos hoje. Vamos sim, ser mais cansadas, mais esgotadas, mais flácidas, mais gordas (ou não! Se formos atinadas). Olhamos para trás e parece que tudo nos escapou, que já não somos tão jovens. Mas espero daqui a 20 anos me lembrar melhor dos 36 do que me lembro dos 16. Lembrar-me que aos 56 ainda sinto o entusiasmo dos 16 e 36. E perceber que aos 36 ainda era muito jovem e sabia-o. E sei!
Que venham muitos mais.