terça-feira, 24 de agosto de 2021

Entretanto, entreter!

 Agosto está a ser um mês surpreendentemente calmo. Os dias desenrolam-se ágeis e tranquilos. Está a ser um mês lento e rico. Depois de uma semana nas paisagens da minha infância e de tensões familiares meio loucas por sermos tantos numa casa só, a verdade é que deixou saudades e uma melancolia muito forte. Regressei com a sensação que nunca deixei de ter 16 anos, mas com a vida de uma mulher de 39 que, no regressar de férias está ainda mais caótica do que quando partiu.

Pensei que me ia afogar quando, na segunda quinzena ficasse entregue à casa e ao miúdo (nas férias da escola), a tentar dividir mal e porcamente o meu tempo entre trabalho e filho (e algumas lidas domésticas básicas, tipo arrumar a loiça da máquina e fazer as camas). 

Mas optei por me render, e não sei, tem corrido bem. Alguns dias mais acelerados, mas no geral a coisa decorre a um ritmo razoável e suportável. Consigo ter momentos de trabalho com o Luccas Neto como pano de fundo, gerir as birras e pedidos de atenção do meu filho, manter os mínimos da produtividade a decorrer, e ainda dedicar-me o suficiente ao pequeno de uma forma tão calma e fluída como nunca tinha sido possível antes. Nunca fui uma mãe descontraída, mas ando a aprender a sê-lo, e a compreender que posso mudar a minha narrativa a meio da história se quiser. É incrível o que acontece quando aceitamos as coisas inevitáveis e as encaramos de frente.

Um dia, com calma talvez vos fale que nos últimos dois, três meses me tenho dedicado com todas as forças ao autoconhecimento e exploração de mim mesma. Tive alguns picos complicados de conflitos mas quando liguei os pontos fez-me imenso sentido e abriu imensas fronteiras que julgava bem delimitadas, dentro de mim. E ajudou-me bastante a levar estes dias com mais leveza e tranquilidade, se bem que preciso urgentemente de tempo para mim e para escrever. Só falta uma semana (fingers crossed!)

Mas, o que queria muito falar neste post, foi o incrível fluxo de entretenimento rápido que devorei em pouco tempo e soube tão bem entregar-me à leitura, às revistas, ao desenho e à netflix com tanta tranquilidade enquanto navego os afazeres. 


Este mês li tanto, tão rapidamente, ando entregue a boa ficção e a boa leitura auto-exploratória - terminei o livro da Holistic Psychologist (com a pior tradução de título de sempre, mas com muito boa informação) - como já não me lembrava de o fazer. Devorei o "Biblioteca da meia-noite" maravilhada com a forma bonita e simples como o autor transforma a previsibilidade da mensagem numa história intrincada que nem sempre desvendamos o desenrolar; li não sem alguma angústia o "A minha irmã é uma serial killer", entre passagens divertidas e expectáveis, havia momentos de pura dor e humanidade tão intensa que me levaram a voar pelas páginas. Por fim, estou a ler também a boa velocidade o "Pessoas Comuns", que vi no instagram da tradutora,Tânia Ganho e a reflexão que fez acerca do mesmo me deixou curiosíssima e está a valer muitíssimo a pena (dois superlativos, é mesmo um bom livro). 



Devorei numa semana todas as temporadas do Workin Moms, que a Rafaela referiu na newsletter da YellowLand. A premissa parecia interessante e de facto não resisti a um binge louco desta série. Há algo de nonsense nas vidas daquelas mulheres e ao mesmo tempo é facílimo identificar-me com os traços de algumas personagens. O que gostei aqui particularmente, é que, à semelhança de outras séries icónicas com o foco em mulheres mais velhas, as personagens envolvem-se em esquemas e mentiras para resolver situações a seu favor, mas de uma forma mais leve e realista. No Donas de Casa desesperadas (que adorava, BTW) eles levavam tudo até às últimas consequências e eu enervava-me com tanta shadyness, o que não acontece aqui. Há tentativas de ajustar as narrativas à vida de cada uma, mas depois há choques bem mais realistas que obrigam as personagens a manter-se mais honestas. Adorei mesmo, e já aguardo a 6ª temporada com expectativa.

Agora vejo o Emily in Paris, que tem críticas razoáveis sem aspirar a ser uma obra prima, e tem sido uma viagem boa, que me enche de vontade de viajar de verdade, e já agora, de refrescar a minha abordagem às redes sociais (no que toca ao trabalho, ok?). 

Fun fact: já aterrei mais vezes em Paris do que em qualquer outro sítio e nunca, nunca fui visitar a cidade.  Estranho não é?

Estou a adorar este revisitar de séries só minhas na Netflix, enquanto devoramos também séries ou documentários de crime em família ou a miúda enche a lista de séries adolescentes. Tentei espreitar o The Bold Type mas malta, aquilo não é para mim, é demasiado oco e as personagens são todas iguais (e igualmente desinteressantes, a meu ver). E já estou a saborear a ideia de fazer um binge-watching das Gilmore Girls do início ao fim para aproveitar o outono.

Fora os livros, aproveitei para um pequeno investimento em revistas que queria muito ter: a Uppercase, a Cunning Folk (sugestão na newsletter da Cat) e mais uma edição especial de papel da Flow, tudo comprado na Under the Cover que tenho de ir urgentemente visitar ao vivo e a cores. Ainda não comecei a leitura mas já aprecio muito que ali estejam em destaque na sala para lhes deitar a unha sempre que possível.

Se chegaram ao fim deste post, obrigada pela paciência, mas sabe bem rever as coisas refrescantes que me têm animado os dias. Não sei quanto tempo durará este sentimento de tranquilidade desta slow-living, mas estou a gostar da viagem e não podia deixar de partilhar. 

Que o vosso Agosto esteja a ser tão prazeroso como o meu!

segunda-feira, 5 de julho de 2021

39

 Assentei os pés nos 39 anos sem grande vontade. Não costumo ser esta pessoa que não gosta de fazer anos e que se quer fechar do mundo um dia por ano. Eu sempre gostei de fazer anos e nunca me incomodou o envelhecimento. 

Mas nos últimos 2/3 anos tem sido difícil digerir o avanço da idade. O peso (muito) extra que teima em ficar, os cabelos brancos que já deixei de contar, acordar com dores no corpo só porque sim, um cansaço que avança no cérebro e me faz esquecer mais do que eu gostaria (ainda assim, mantenho uma orgulhosa memória de elefante). Talvez seja só a maternidade, que de facto mudou tudo e tornou os obstáculos da vida um pouco mais difíceis, assim como nos videojogos. Agora sinto que jogo no nível máximo de ansiedade e desconforto. Não creio que volte ao training mode. Mas também não sei se quereria. Há algo neste desafio que me faz ganhar mais garra e força do que antes e isso também me agrada.

Mas não é bem sobre isto que quero falar. Gostava de explicar a minha questão. Não tenho grandes problemas em envelhecer, durante vários anos da minha infância e adolescência até me senti muitas vezes como uma pessoa idosa num corpo jovem. Mas o peso do número 40 está a desequilibrar a balança. É que gostei mesmo MUITO da década dos 30 e não me apetece nada sair daqui. Tem sido uma década feliz, em que me tenho sentido uma power woman em tantos níveis. Talvez tenha medo de não saber mantê-lo na próxima década. Ou talvez, à luz da dificuldade que tive em ter entrevistas de trabalho e nem uma proposta sequer, tenho receio de não conseguir ganhar dinheiro para continuar a ser uma mulher independente. Eu sei que estou num projeto giro e inovador, sei que estou a fazer mais e melhor trabalho que alguma vez fiz na vida, mas inevitavelmente, perante tanta porta fechada fico preocupada. E claro, há ainda aquele medo da 'minha' startup não vingar e isto se desvanecer.

Isto talvez nos leve a questões pertinentes do quanto da nossa identidade é o valor que nos dão no trabalho. Vou ser sincera, sempre fui razoavelmente bem considerada no trabalho, mas nunca fui uma estrela ascendente a somar elogios e aumentos salariais. Eu sempre fui a pessoa sólida e confiável. E no geral sempre estive bem com isso, nunca aspirei a grandes coisas, na verdade, aspirei sempre mais à minha liberdade e ao meu espaço do que a ser uma workaholic. Mas sem dúvida que talvez confunda o valor do trabalho com o meu valor pessoal, ou não deixaria estas questões me afectarem tanto.

Fiz um exercício giro com a minha irmã, no dia dos meus anos. Em todas as décadas da minha vida consegui atingir sonhos e patamares a que aspirei. Até aos meus 10 anos pude ter uma irmã (temos quase 9 anos de diferença, pelo que foi um penoso processo de pedinchice aos meus pais), entre os 10 e os 20, pude escolher a área que queria estudar, fui para Artes e mantive-me determinada nessas escolhas, vivi em pleno uma adolescência feliz. Entre os 20 e os 30, comprei uma casa, saí de casa do meu pai, conquistei a independência. E nos 30... libertei-me de uma relação que já não funcionava, recomprei a minha casa, vivi sozinha, encontrei novamente o amor e tive um filho. Foi uma década épica, de força e de determinação.

Terei receio de não saber encontrar sonhos aos 40? De já ter atingido o meu pico? Ou de serem sonhos mais loucos e estratosféricos e tenho medo de brilhar? Ou então, numa nota terrivelmente obscura, a minha mãe morreu com 46 e essa proximidade das idades incomoda-me (não que ache que vou morrer aos 46 também, mas há um peso absurdo que fica e parece que fico em expectativa).

Não sei. Não sei, mas vou descobrindo devagar, aprofundar com calma. Hei-de perceber como manobrar este navio. Não preciso das respostas todas agora, preciso sim, de saber que isto também se resolve. E que este processo de desvendar e recuperar também pode ser épico e uma das minhas maiores forças. 

Portanto, parabéns a mim, e que os 40 sejam festejados em pleno. Para já, concedam-me esta pequena neura. 

terça-feira, 15 de junho de 2021

Ansiedade

 Há uns dias quebrei. Desatei a chorar numa tarefa qualquer mundana e um medo assolapado de que o meu filho me morresse encheu-me de uma angústia tremenda. Quando me tornei mãe percebi que carrego em mim todos os medos do mundo, a cada dia que passa sinto que tenho mais a perder porque, confere, passe o tempo que passar, o amor aumenta diariamente. Mas nunca tinha sentido esta angústia paralisante, dei por mim a chorar, a pedir ajuda a amigos e família, a exteriorizar este terrível medo que me comia as entranhas. Fui acalmando. Não controlo tudo na vida e certamente não sei o que o futuro reserva, mas viver assim não é opção. 

ansiedade pânico medo

Photo by Tonik on Unsplash


Não soube explicar a origem dessa dor, dessa angústia nervosa que me tomou de assalto. Continuo a não ter grandes luzes sobre o assunto. Apenas sei que ainda não me reequilibrei. Já tive um segundo episódio dias depois, e hoje, depois de uma manhã surpreendentemente calma e feliz ao entregar o Gonçalo na escola, dei por mim a chegar a casa e a sentir uma ansiedade a crescer no peito e um cansaço extremo ao mesmo tempo. Não estou aqui a rebolar na minha miséria, mas num assomo de consciência compreendo que isto ainda não acabou. 

Falamos tanto de saúde mental e de como andamos tomados de fadiga pandémica e de incerteza no futuro, e eu sinto-me o verdadeiro cliché deste discurso. E custa-me muito compreender e aceitar, mas se calhar está na altura de assumir que "eu não estou bem". Percebo que a morte do meu avô acordou algumas feridas que julgava estarem saradas, e 

Tomei uma série de atitudes e ando a delinear alguns planos: deixei de ouvir uma larga maioria de podcasts de crime, estava sempre a por-me no lugar dos intervenientes (todos), e a tomar as dores deles para mim. Tento não me encher de tarefas (o que é algo difícil na minha posição, mas tenho-me permitido abrandar um pouco sem lesar o trabalho, espero), procuro explorar uma paz inconsciente e tento meditar ou, no limite, parar um pouco para respirar fundo e estabelecer alguma paz.  Vou voltar a ficar sozinha em casa e quero voltar a fazer ioga ou qualquer outro exercício. Mas são planos que seguem com calma e ponderação, não quero piorar a achar que tenho de fazer mais e mais.

Por fim, faço por me rodear de inspiração (que me faça sentir bem e não uma fraude - todo um outro assunto para outro dia) e de palavras de força. Toda a ajuda conta na recuperação. Não estou nos meus dias mais produtivos, o futuro continua a construir-se e o mundo não abranda por nós, mas eu sei que tenho de olhar para mim e me dar algum sossego.

Porque partilho isto num blog que nem sei se ainda é lido sequer? Pois, não sei, só sei que partilhar ajuda. Sei que estas dores não são só minhas, e sei que a ansiedade tem dominado a vida de muita gente. Nunca me tinha sentido tão descontrolada, e imagino que como eu haja muitos. Só queria dizer que, se estás a passar por algo semelhante, não estás sozinh(e/o/a). E após escrever isto posso atestar que me sinto mais tranquila. Partilhar é vida mesmo, mes amigues.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

"It's all happening!"

Sempre adorei esta frase icónica do Almost Famous. Apesar de ser um filme que me deixa uma sensação absolutamente melancólica, acho-o um retrato tão interessante daqueles tempos idos dos anos 70, da loucura das bandas e da música e das groupies. Se não viram, fica a sugestão, vale muitíssimo a pena, nem que seja pelos atores fenomenais que por lá andam.

Feito o preâmbulo, queria só aqui deixar estas palavras porque ultimamente na minha vida, ALL is happening. Coisas boas e más, coisas trabalhosas e que me drenam, outras que me renovam a energia. 

Há dias apresentei-vos nas stories do instagram o meu novo projeto profissional. Não é assim tão novo, uma vez que já estou há um ano a trabalhar nele, mas só agora viu a luz do dia e se tornou público, e o trabalho tem sido super intenso. Não me quero alongar muito, talvez um dia escreva mais detalhadamente sobre isto, mas apesar de curto e de ainda não saber o que o futuro reserva, tem sido essencial na minha reconstrução profissional. 

Comecei 2020 deprimida e frustrada por ter arriscado num novo emprego que se revelou ser uma má escolha. Um ano num emprego que me arrasou a vários níveis e me fez avaliar o meu percurso e arrepender-me de tantos passos lá atrás. Por isso, ter sido convidada para participar, e depois ter um papel cada vez mais activo neste projeto, ajudou-me a reconstruir a minha frágil auto-estima. Hoje posso dizer sem grandes hesitações que me sinto capaz, orientada e forte. 

Ainda assim, estou cansada, claro. Como tantos de nós. As consequências psicológicas da pandemia estão a fazer-se sentir com mais força a cada dia. A necessidade de férias, de voltar a separar as águas de casa-trabalho-família, de parar um pouco para só SER eu um bocadinho, de parar de produzir, tudo isto acumula-se em mim, e creio, em todos nós. 

No entanto, acho que tudo isto é bom, tudo é positivo. Estamos a crescer, tudo está a acontecer.