Wednesday, August 15, 2018

Amamãetação, ou como isto custa como o raio - parte 2

Continuamos a saga da amamentação. Sei que isto por vezes pode ser extremamente secante para quem não é mãe, mas escrevê-lo está a ser muito positivo para mim. Entretanto queria acrescentar, depois de ler o post da Lénia e ela focar um motivo muito forte para dar continuidade à amamentação... ser grátis e ser muito prático, sem ter de comprar um porradão de acessórios e afins. Mas ainda vou falar nisso. Para já, o Gonçalo tinha pegado finalmente na mama...

O puto mamava até se fartar. Larguei a bomba, não tinha necessidade dela. Eu andava dedicada à coisa, fazia calor e frio, punha creme de lanolina, dava leite em livre demanda (que odiei nesta fase), não fazia feridas nem estava particularmente incomodada. Achava que já estava a caminho do sucesso.

Até que um ou dois dias depois de ele pegar na mama, senti frio e estava cansada. Estávamos em Agosto, num verão super quente. Algo não estava muito bem. Tinha febre, e rapidamente me apercebi que tinha um durão na mama esquerda. Pouco depois percebi que afinal eram dois. E a pele começou a ficar rosada, em cima do durão. Não doía muito, mas incomodava e assustava. Decido ligar para o SOS Amamentação (que foram umas queridas, e com quem acabei por falar várias vezes nestes primeiros tempos). Descrevi o que se passava comigo, me lá me dizem que teria certamente uma mastite e encheram-me de conselhos e recomendações sobre como massajar o peito e minimizar a coisa e desfazer os nós. Era importante o bebé mamar muito da mama afectada para ajudar a voltar tudo ao normal. 
Ao mesmo tempo, tive a oportunidade de consultar rapidamente a minha obstetra, que viu e confirmou que estes eram sintomas de uma mastite, prescreveu uma receita de antibiótico e anti-inflamatórios e eu cruzava os dedos para que o esforço conjunto desse certo. 
Eu tentei fazer tudo certinho.

Só que depois começou a doer quando dava de mamar. Punha compressas quentes, punha o bebé a mamar, compressas frias, fazia massagens com uma garrafa de plástico com água quente, punha folhas de alface congeladas a seguir (recomendações e truques das enfermeiras da SOS Amamentação), e mesmo com os comprimidos todos, não passava. Eu começava a temer cada vez que o Gonçalo chorava para comer. Na mama direita, apesar de não ter nada visível comecei a ter dores excruciantes e assustadoras, como se em vez de sair leite, me estivessem a introduzir ácido pelo interior da mama. Tinha de morder a minha mão para não gritar de dor. Mas chorei muito.

Foi aqui que comecei seriamente a pensar desistir desta merda toda. Sentia-me triste, exausta e sozinha.

Eu ficava rancorosa com as outras mães que me mandavam mensagens de força e diziam para continuar, que elas também tinham superado e coiso. Até que uma prima me ligou e contou a história de amamentação dela, que durou apenas 2 meses (e que na altura me parecia uma eternidade. Eu levava duas ou três semanas disto, naquele momento não me imaginava a dar de mamar 2 meses), mas ela lá partilhou a história dela, dizia que lhe doía, que fez feridas e sangrava, e tinha sido traumatizante, que temia cada momento em que tinha de dar de mamar e quando desistiu se sentiu tão mais tranquila para simplesmente ser mãe. Terminou com um “faria na boa 10 partos sem anestesia do que voltar a dar de mamar”. 

Eu revi-me MUITO na experiência dela e fiquei bem mais calma depois desta conversa. É que por muitas boas intenções que toda a gente tivesse, eu estava realmente a sofrer e às vezes, mais do que encorajamento em seguir em frente só queremos ouvir "é ok se parares, não precisas mesmo de fazer isto se não quiseres". 

Ponderei bem o processo todo para parar com a amamentação. Mas não sabia se queria deixar já. Eu queria muito amamentar e queria muito que aquela infecção passasse. Disse a mim mesma que tentaria mais uma semana, que dava hipótese ao antibiótico para funcionar, para o caroço desinchar, etc. Só que o antibiótico pouco adiantou. Os dias passavam e não notava diferença. As dores continuavam, eu chorava a amamentar e dizia a mim mesma que aquilo era absolutamente errado, que ia parar.

Mas era a minha escolha (ainda que a questionasse umas 578 vezes por dia). Ouvi uma história de uma rapariga que parou a amamentação num momento de stress e se arrependeu. Eu não me queria arrepender, eu sonhei tanto com aquele momento, com aquele filho, ainda não me sentia pronta a desistir.

E sim, antes que perguntem, eu tinha noção que estava a ceder, não sei se às convenções de "amamentar é que é", ou se tinha algum sentimento de culpa, eu andava tão dividida que já não sabia o que fazer. Não sou nem nunca fui fundamentalista, mas sou a favor da amamentação. E eu queria mesmo essa experiência, por isso continuava a adiar a decisão de parar. Não que esperasse que se ia tornar bom, já não acreditava nisso, mas apenas porque também tinha medo de parar de um dia para o outro. O início deste processo é muito delicado, e enquanto a produção não estabiliza e encontra um ritmo tudo é imprevisível. 
Então, por medo dos comprimidos e de piorar a situação, e porque já conhecia aquela face da luta, dei por mim neste piloto automático de sofrimento prolongado qual mártir da maternidade.
(eu sei, eu sei! Hormonas!)

O meu tipping point foi quando me meti nas urgências para reavaliar a situação da mastite. Por esta altura já tinha começado a complementar a alimentação do pequeno com leite artificial, que ajudou bastante a minimizar os períodos de dor e desconforto e tirou-me a responsabilidade de ser a única pessoa a ter de alimentar o Gonçalo.
Peguei em mim num domingo de manhã e lá fui enfiar-me num hospital da luz semi-deserto. Mudaram-me a medicação, e chamaram uma enfermeira que me explicou como massajar o peito e drenou uma boa parte do leite parado. Os nódulos não doíam nesta fase, mas eram enormes, sentia-me deformada. Mas ela lá me ajudou a reduzir o volume e o desconforto. Aprendi bastante com ela. As coisas iam mudar, ou pelo menos já percebia um pouco mais do funcionamento da coisa. 
Ainda fui à farmácia e quando regressei a casa, o Gonçalo tinha dormido o tempo todo, tinha acordado há pouco e não tinha pedido leite, parecia que estava à minha espera. Achei que era um bom prenúncio para a última oportunidade que daria à coisa. Quase posso jurar que não me doeu dar-lhe de mamar dessa vez. E em 3 dias estava visivelmente melhor. Ao fim de uma semana não tinha dor nem nódulos (apenas uma parte da pele a secar e enxertar-se a si própria por causa do (des)inchaço). Já não chorava, e apesar de odiar ficar parada tanto tempo a amamentar a cria, já tudo parecia mais natural, apenas realmente chato.

Mais tarde, ao falar com a enfermeira do centro de saúde contei-lhe que desconfiava que a bomba do leite tinha sido a causadora da mastite, e ela confirmou que usar bomba eléctrica em fases iniciais era muito complicado, porque estimulava demasiado a produção de leite e podia dar azo a estas complicações. Já fica a nota para as/os interessadas. Tenham atenção a estas coisas!

E por hoje é tudo.
Na terceira (e última) parte seguem mais alguns desafios, e a parte em que eu comecei a gostar disto.


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