terça-feira, 7 de agosto de 2018

Amamãetação, ou como isto custa como o raio - parte 1

Queria muito falar deste tema, e agora que o meu miúdo tem quase um ano e eu levo quase um ano disto, achei que era interessante fazê-lo finalmente. Sei que mencionei contar a história do meu parto, mas acho que há ali pouco para dizer, portanto tenho alguns posts dedicados à minha experiência neste tema. Espero que gostem, se não gostarem... este blog volta à programação normal dentro de instantes.

Há tempos fizeram-me uma pergunta interessante… qual o momento mais marcante e mais intenso em relação à gravidez e consequente maternidade.

Quase um ano depois de parir, há tantos momentos maravilhosos e intensos, que à partida diria que a escolha seria difícil, mas quando fiz um rápido check mental ao último ano, a resposta acabou por ser muito simples. A amamentação. Todo o processo da amamentação. Ainda hoje é algo que me transcende e me faz questionar muita coisa, ainda hoje leio e informo-me e pergunto-me se estarei a fazer bem. 

Há tempos li no Observador uma série de reportagens acerca da amamentação (a propósito da prestação dos Estados Unidos na Assembleia da OMS em relação à promoção e protecção da amamentação) e numa delas, a consultora Cristina Pincho disse aquilo que gostaria de ter sabido antes “É mais importante a mulher preparar-se para a amamentação do que para o parto”. 

Não é à toa que este é um assunto que dá pano para mangas. Há TANTA coisa, tanta área cinzenta, tantas complicações e ainda chama tanta atenção que uma pessoa nunca consegue ouvir o seu instinto.

Eu fui um pouco parva. 
Não quis aulas de preparação para o parto. Sempre fui muito pragmática em relação ao parto, nunca questionei ou idealizei esse momento, até porque o pai da criança não ficaria comigo. Ele não se sentia confortável e eu, sinceramente, também não. Por isso sabia que queria seguir as indicações que me dessem no hospital, que confiava no hospital que escolhi, e que me ensinariam os básicos. Vi alguns vídeos explicativos de cuidados com o bebé e confiei que o meu instinto me ajudaria a encontrar o meu caminho quando estivesse na dúvida. E também temos família que pode apoiar e ajudar.

Quanto à família estamos bem, claro que há palpites e opiniões sobre tudo, mas eu sou muito tranquila quanto a isso. Podem dizer tudo à vontade, eu retiro o que faz sentido para mim e o que não faz, ponho de parte sem criticar ou me chatear (curiosamente achei que este tipo de confiança ia demorar a construir, mas foi mais rápido do que julguei). 
No resto, errei redondamente. O meu parto não foi lindo, mas também não foi traumatizante. Acho que estava preparada para que não fosse nenhum momento transcendental, uma vez que imaginava que talvez tivesse uma experiência parecida com a da minha mãe, e por isso encarei muito bem as 28 horas de trabalho de parto frustrado para culminar na cesariana. 

Não estava era preparada para ser tão largada à minha conta quando saí do bloco de partos. Tive inclusive uma auxiliar que foi altamente brusca comigo quando perguntei se me ajudavam nos cuidados iniciais com o Gonçalo, ao que ela respondeu “a gente não faz nada, quem trata é a senhora!” e eu, agrafada e ainda sem sensibilidade nas pernas a dizer incrédula “mas acabei de fazer uma cesariana, alguém tem de me ajudar porque nem sequer me consigo por em pé nem pegar no bebé…”.

Enfim. Acreditem que hoje já tenho mais noção do género de parto que gostaria de ter, e se se der o acaso de ter outro filho, há coisas que vou definir de antemão sim. Houve algumas pessoas que me trataram como gado (inclusive a médica de serviço), o que valeu foi que outras eram extraordinárias.

Outra coisa que aprendi é que o instinto foge para parte incerta na confusão das hormonas. Esse foi mesmo o meu maior erro e aquilo que ninguém me explicou. Uma pessoa sabe que vai deixar de ter vida, mas não espera deixar de ter identidade, por muito que digam que te começam a tratar por “mãe”, não é bem aí que acontece. É quando és engolida pelas necessidades do pequeno ser que puseste no mundo. É quando percebes que tu és a primeira casa dele e a sobrevivência dele depende de ti. É avassalador. Deixas de ser tudo o que eras antes para estares ali para ele. Lembro-me que na noite do nascimento dele o meu moço saiu do Hospital e foi ver o jogo do Benfica com um amigo (não me oponho, claro, ele não podia ficar comigo), mas eu também queria ir ver o jogo, comer tremoços e beber cerveja e não podia. 

Mas estou a desviar-me do assunto. 
A amamentação começou com o pé direito. Acho que começa quase sempre. Ele sai da barriga e só quer mamar. Eu confesso, andava doidinha para perceber qual a sensação. A minha mãe dizia que tinha adorado a experiência, e que era como se nos fizessem cócegas por dentro. No início era mesmo assim. Muito simples e imediato, tudo muito animal, muito óbvio. Muito bonito.

Só que o Gonçalo teve de ir para a incubadora. Esteve 3 dias longe de mim. E isso baralhou tudo. Sonda no nariz, leite artificial, começar a tirar colostro com bomba logo no início para complementar a alimentação artificial… e por muito que as enfermeiras (abençoadas) tentassem pô-lo a mamar, era frustrante. Um bebé na incubadora já não sabe se está na barriga ou não, mamar não é a primeira coisa que lhes apetece, especialmente se o estômago se vai enchendo sem esforço. Tentei várias posições, mamilos de silicone, e ele por vezes mamava e até pegava bem, mas não durava muito. Quando teve alta ainda não sabia mamar, mas diziam que estava bem encaminhado. A pediatra que lhe deu a alta inclusive deu-me uma série de dicas vagas, e o nome da clínica onde faz acompanhamento e lá fui eu, sem ideia de como se fazia isto, com um filho que foi alimentado por estranhos durante dias, que bebia o meu leite em exclusivo mas num biberão (ainda por cima daqueles descartáveis do hospital), que supostamente é o inimigo da amamentação. 

Felizmente no meio disto tudo, eu não tive sintomas esquisitos da subida do leite ou afins, e a produção foi aumentando sem grandes complicações e isto dava-me esperança que pelo menos lhe pudesse dar o meu leite. Mas confesso, partia-me o coração que o meu filho não conseguisse mamar no meu peito.

As minhas tentativas eram trapalhonas e frustradas, o Gonçalo pegava bem mas cansava-se, chorava, frustrava-se. Mas eu insistia, ainda achava que iria conseguir. Partiu-me o coração quando o meu companheiro me disse que eu devia habituar-me à ideia de ter de tirar leite com a bomba, se quisesse dar de mamar. Porque até à data era mesmo a única coisa que funcionava. Já tinha desistido dos bicos de silicone porque me feriram. 
E eu ia-me mentalizando enquanto bombeava leite às 4h da manhã, a ler furiosamente artigos sobre amamentação e a receber conselhos de mães que me diziam que isto não é mesmo fácil, mas não era impossível. E a pensar que talvez não fosse impossível para os outros, mas parecia que ia ser para mim.

Porque raio eu queria tanto dar de mamar?
Por dois motivos muito simples… um, é biológico, eu tinha curiosidade e tinha uma vontade imensa de cumprir esse propósito. Acho incrível. Não o vejo como uma coisa de beleza transcendente, nem como uma coisa animal desvairada. A amamentação é algo absolutamente natural e queria muito que fosse tranquila. 

E o outro motivo era precisamente pelo que a minha mãe dizia, ela tinha adorado, lembram-se? Talvez procurasse algo mais para me sentir ainda mais próxima dela. É que hoje, 12 anos passados da sua morte, depois de crescer e viver mil experiências que me moldaram na pessoa que sou, ainda sigo as suas palavras como verdades universais.
E não sei se terei mais filhos, então tenho de agarrar esta oportunidade e não desistir, ainda não.

Um belo dia, tinha o Gonçalo uma semana e pouco, experimentei dar de mamar deitada. E assim sem mais nem menos, ele pegou, mamou sem dificuldade, até se fartar e adormecer. Foi o meu momento de triunfo. Sem ajudas, sem adereços extra, e até sem grande esforço cheguei lá. Ainda cheguei a levar a bomba comigo no início, mas rapidamente a dispensei, não tinha sido um acaso isolado, ele de facto estava a mamar por ele próprio. E pronto! Já estamos bem encaminhados, vamos a isso.


Era bom não era? Pois, ainda tive mais algumas aventuras, aliás, ainda nem cheguei à pior parte…
(Ainda aí estão? Não acredito que tiveram a paciência de ler isto tudo. Ainda vêm mais posts sobre este assunto em breve)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Quando alguém morre, aqueles momentos irreversíveis em que a respiração se perde, assemelham-se-me ao momento em que um barco perde os remos e fica à deriva. Quando a noticia de uma morte chega, faço as contas de há quantos minutos a pessoa deixou de viver, e está ali tão perto, o momento acaba de passar mas quase que o poderíamos agarrar e talvez se conseguisse salvar aquela vida suspensa. Um remo perde-se e flutua e por momentos quase lhe tocamos mas ele foge do nosso alcance.
É assim a morte, a imensa crueldade da morte. Não interessa se estamos à espera ou se é uma surpresa trágica. Há um momento em que tudo muda, e não podemos fazer nada para o mudar de volta.

A realidade mudou esta semana. Não se apoquentem por mim, não é comigo ou com a minha família. Mas dói muito porque tenho um carinho especial por uma das pessoas que mais sofre. E é como se fosse connosco. A morte cansa. Destroça quem cá fica, recolhe pedaços, deixa perguntas no ar que nunca terão resposta. 

Dirão os mais pragmáticos que a vida é mesmo assim, que faz parte. E faz. E eu própria penso nisso para amenizar a dor. Não podemos fazer nada para contrariar, para evitar ou esquecer. Só viver o presente, até ao detalhe mais aborrecido e agradecer cada inspiração de ar fresco, cada raio escaldante de sol no corpo.





Photo by Lucas Silva Pinheiro Santos on Unsplash

Há mortes que não deviam acontecer. Há dores que não deveriam ser vividas. 
À M., nunca será esquecida.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

7 anos de caixinha de Pandora

Photo by Gades Photography on Unsplash

Dizem que 7 é aquele número mágico, sortudo, cheio de significado.
Nunca liguei muito a números, mas sem dúvida que é uma bela idade para este blog. Já escrevo blogs há13 anos, e este provavelmente é o mais duradouro e feliz. Este blog acompanhou-me nas alturas mais importantes da vida, fiz 30 anos com este blog, separei-me, encontrei amor, fui mãe, apaixonei-me pelo meu emprego, cansei-me, mudei de emprego, procurei alternativas aos empregos, cansei-me, viajei, desenhei, pintei, inspirei-me e procurei inspirar, perdi-me, desorientei-me... e acho que cheguei a uma altura especialmente interessante, em que me estou a encontrar. Tudo aqui, tudo por perto. 
Ando a magicar algumas mudanças aos poucos, e gosto da ideia de o desenvolver devagarinho e sem pressa. O meu cantinho pessoal e sossegado. 
Que já tem 7 anos. E em 7 anos tanto mudou, o planeta girou 7 vezes à volta do sol. Que venham mais algumas voltas e novos desafios e aventuras. Ou a rotina chata do dia-a-dia. Venha o que vier, eu cá continuo.
Obrigada por estarem aí. 

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Vamos falar de mudanças?


Há dias falava que me custava mudar. Mas também que precisava de o fazer o quanto antes. Pelo meu corpo voltar a ser meu e por me sentir identificada comigo mesma quando me olho ao espelho.

Uma coisa eu tenho de dizer antes de avançar mais... ainda tenho uma admiração enorme pelo meu corpo e pelo que ele criou, mas também sei que tenho sido negligente por isso mesmo. Ainda não encontrei o equilíbrio mas estou já em processo, e sei que com isto iniciei uma longa viagem de autoconhecimento e de reconhecimento de mim mesma.

Dizia eu que precisava de me reconhecer. Fiquei com a sensação que a maternidade me despojou de tudo e me vai devolvendo aos poucos o tempo, a clareza, a disponibilidade e a vontade de eu ser eu própria. Eu própria, mas agora mãe.
Quando escrevi esse post, uma boa parte de mim lutava para não me deitar abaixo pelo meu desleixo, lutava para não me sobrecarregar de críticas e não me chamar nomes feios. Não quero odiar-me, já me deixei disso, mas também não andava propriamente compreensiva comigo própria.
Só sei que olhava ao espelho e não me podia ver. Não sei se são as olheiras destes meses, se a pele está mais baça e sem graça, se ganhei rugas no canto dos olhos, a verdade é que algo não estava bem.

Talvez por isso não conseguisse ser tolerante comigo mesma. Olhava ao espelho e sentia que precisava de mudar algo. Não podia ser o peso, não já, ia demorar demasiado tempo. Precisava de algo mais rápido. E com os constrangimentos de ter um bebé que se agarra a meu cabelo para se equilibrar como se eu fosse a Rapunzel, de ter semeados cabelos enormes pela casa toda, de estar sempre a desviar cabelo da cara do Gonçalo quando o amamentava, comecei a alimentar a ideia de cortar o cabelo um pouco mais curto, de experimentar um corte novo, de voltar a ter alguma liberdade de movimentos e menos tempo à espera que seque depois de o lavar. Afinal, mudar de corte já é uma mudança grande na vida.

Esta semana decidi também que estava na altura de juntar duas decisões de uma vez só e aproveitava a vontade de dar um corte grande para a transformar num corte radical e doar o meu cabelo a uma organização que o recolha para fazer perucas a crianças com cancro.
Não é muito no mar das prioridades da doença, mas é algo que sempre quis fazer. E confesso, não é fácil de tomar a decisão e não é fácil ver o cabelo a ser trilhado daquela forma.

Mas é incrivelmente libertador, e nem eu sabia do quanto precisava disto. Estou extremamente satisfeita comigo mesma porque pela primeira vez em muito tempo fiz finalmente algo, dei o passo, dois passos num só e senti-me mais capaz e veja-se... estou diferente ao espelho.
Mudei. E foi tão mais simples do que esperava.