domingo, 31 de dezembro de 2017

Uma espécie de balanço...

Este blog anda mais parado mas não está defunto. Perante a dificuldade em sentar-me para escrever com calma os posts que gostava (ou seja o que for, ainda só escrevi duas vezes no meu diário desde que fui mãe, e uma delas está incompleta), uma vez que tenho um bebé que faz sestas-relâmpago, é tão infinitamente mais fácil publicar nas redes sociais os meus pensamentos avulso e alimentar ali a minha relação virtual convosco. 
No entanto um balanço é sempre um balanço, e com a ajuda do desafio da Susannah Conway para Dezembro, o December Reflections, consegui um texto mais composto que já está na minha página de Facebook, e queria deixá-lo por aqui também porque tenho milhões de saudades de publicar algo no blog, ainda que se repita. Creio que publicarei mais coisas em breve, até porque com um novo ano vem uma nova palavra e acho que já sei qual a minha...

Tenho tido vontade de escrever e a minha mente tem vagueado incessantemente pelos balanços de 2017. Ainda tenho tudo tão desorganizado na minha mente, mas vou tentar dar ordem ao caos, devagarinho. Valham-me os temas deste desafio, que me ajudam a orientar o pensamento, ou pelo menos assim espero...
(Dia 11: I discovered that
Dia 17: I let go of
Dia 21: this year was 
Dia 27: 2017 taught me 
Dia 28: my wish for 2018)

2017 foi um ano de descobertas incríveis.
Foi o ano em que vivi a experiência mais incrível da minha vida que me virou tudo do avesso e tive de descobrir o meu novo eu. Quando fui mostrar (exibir) o meu pequeno ser no trabalho a minha chefe disse algo que me ficou e acho que é uma das expressões que mais reflecti ao longo dos últimos 4 meses e meio, que é “new normal”. Aquilo que era a normalidade já não o é. Foi tudo abaixo e agora é reconstruir com novos parâmetros e variáveis. E apesar do caos que por vezes se vive, é muito compensador ver determinadas coisas ganharem forma. 

Percebi que consigo ter vontade e determinação férreas, pelo menos assim foi com a amamentação e quero ver se não me esqueço disto para quando me quiser dedicar a outros projectos de vida. Dói, mas ultrapassa-se.
Acima de tudo, descobri que sou muito mais forte do que pensava, e a minha mente muito mais elástica e adaptável.
2017 ensinou-me o significado de resistência e de força. Ensinou-me mais sobre mim. Para o bem e para o mal. Sinto e vejo as coisas mais claramente. 

Foi este o ano em que me despedi da minha avó paterna, e vi a saúde da outra avó a deteriorar-se perigosamente mas cá se vai mantendo firme, ainda que com as inevitáveis sequelas. Sou grata por elas sempre. E fico feliz por o meu filho poder conhecer uma bisavó.

Este ano despedi-me também de complexos e de preocupações com o meu corpo. A gravidez deu-me uma tranquilidade e liberdade imensa. Depois de parir, e apesar da barriga que se manteve por uns tempos, das estrias que ficaram, da pele que ficou flácida, senti-me grata e apaixonada pelo meu corpo. Agora, já quase de peso recuperado, apesar de precisar de perder mais peso e de retomar uma alimentação mais saudável, e de voltar a exercitar-me, gosto do meu corpo mais do que nunca. Espero que esta paz perdure por longos anos. Libertei-me dos complexos e sinto-me pela primeira vez em muito tempo plenamente integrada no meu corpo.

Não vou negar, 2017 foi um ano algo duro, tudo mudou e eu fui largada no caos, a recuperar pouco a pouco. Chorei muito e penei muito. Acho que andei a piscar o olho a uma depressão pós-parto. Ainda me sinto a escrava das hormonas hoje em dia. Mas sinto-me mais eu, cada dia mais capaz. Enraizo-me no meu lugar no mundo, sinto-me forte para lutar as próximas batalhas. Descobri amigos improváveis e palavras de carinho onde não esperava. Assim como palavras ásperas e atitudes condescendentes onde não imaginava surgirem. Acho que faz parte.

Ainda assim, o balanço é positivo, muito positivo. 

Para 2018 só desejo saúde e alguma coragem. Tenho alguns desafios em mente, e claro, toda uma logística, uma nova normalidade para gerir. Que a força esteja comigo. 

Um feliz 2018 para todos os que me seguem e me lêem e têm uma paciência infinita para mim. Não sabem o quão importantes são. Obrigada por tudo.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

As coisas a que nos prendemos... e deixamos ir

Conduzi ontem o meu carro pela última vez. Foi o primeiro carro que tive em meu nome, que comprei. E tem uma história de muito amor e carinho que tenho trazido comigo nos últimos 15 anos. Que quero partilhar agora, que me despedi dele.

Creio que em 2000 o meu tio tinha direito a ter dois carros de serviço que podia passar a alguém da família directa, e que podia renovar a cada 2 anos, e decidiu usufruir desse direito para surpreender o meu avô e dar-lhe um carro... ou vários ao longo dos anos. 

Não me esqueço do momento em que o meu tio lhe passou as chaves para a mão no dia de anos dele, num Agosto já ido. 
A família toda sabia do segredo e estávamos na expectativa louca da surpresa. O meu avô era a melhor pessoa do mundo, merecia tudo o que lhe pudéssemos dar. Lembro-me tão bem daqueles momentos em que o meu tio lhe disse, a medo, não lhe fosse dar uma coisinha com a emoção. O meu avô nem podia acreditar. Ficou comovido. Todos ficámos.
Em 2002 veio o meu carro. Passou pelo meu avô, que infelizmente morreu antes de poder trocá-lo. E depois passou para a minha mãe, que o comprou. E quando ela morreu fiquei eu com ele. 

Antes tinha sido dele, e dela. Era importante por isso. Era um bom carro, económico e rápido e seguro.  Mas foi deles. E eu ali sentia-me protegida e segura. E tudo correu sempre lindamente. Gostava de pensar que eles me protegiam à distância. 

A realidade é que no fundo é só um carro e eu não podia continuar a usá-lo por muito tempo. Está velho e é pequeno. Para uma rapariga de 23 anos foi óptimo e era melhor do que eu imaginava. Se continuasse só eu, ficaria com ele até apodrecer. Para uma mãe de família não dá, simplesmente. Um dia teria de me despedir dele, de aceitar que a vida mudou e o carro envelheceu. Esse dia chegou. 

Mas nada me tira o gozo que foi tê-lo. Nada me tira o prazer de o ter conduzido, das viagens que fiz, da música que cantei a altos berros, das boleias que dei, de ter criado tantas memórias nele, de ter trazido o meu filho para casa nele. Foi meu 11 anos e foi maravilhoso. E agora vai dar gozo a alguém novo, que o vai apreciar certamente.
E eu vou começar uma nova fase, ter um carro a que não me prenda tanto emocionalmente, seguir em frente, ter outro estilo de vida. 

Quanto a eles... estão sempre comigo, a proteger-me à distância, seja onde e como for.

domingo, 17 de setembro de 2017

Ch...ch...ch...ch... changes

(Imagem: popsugar moms)

Não queria bombardear o blog com conteúdos chatos sobre maternidade a torto e a direito mas confesso que é inevitável uma vez que submergi neste mundo e ainda não consegui voltar em cheio. Provavelmente nunca voltarei ao que era antes, com tudo o que isto tem de assustador e libertador. Excepto nos pés, que voltaram a ser feios como dantes, assim como o meu corpo, que, tirando a barriga e alguma flacidez extra, parece ter voltado ao que era sem grandes dificuldades.

Ando perdida num mundo de fraldas, cremes para rabo, mamas e biberões, leite, muito leite, roupa pequenina e muito namoro com aquele pequeno ser que me retiraram das entranhas naquele dia de verão e que tenho vindo a conhecer cada vez melhor de dia para dia. E já passou um mês e uma semana. Por vezes parece que passou a correr, outras, parece que passou uma eternidade. 

Têm sido dias muito preenchidos, sem saber bem onde começa um e acaba o próximo, sucumbi um pouco ao pânico de mãe de primeira viagem (sabemos que será difícil, mas nada nos prepara verdadeiramente para a realidade), e o baby blues não ajudou nem um bocadinho. Tive a sorte de estar rodeada de família e boas amigas com quem desabafei os meus males, pedi conselhos (sou das últimas a ser mãe) e aos poucos superei as inseguranças e as dificuldades com a amamentação, que convenhamos, também é mais tramada do que a pintam. Estou num mundo muito mais tranquilo agora. Não é um mundo isento de sustos e inseguranças mas está a tornar-se aos poucos numa viagem mais amena em que me deixo perder nos doces sons do G. a dormir (ele ronca e é a coisa mais adorável de todos os tempos), das pequenas conquistas diárias, do reaprender da vida em casal e familiar neste pós-parto, da evolução que lhe vejo de dia para dia e as tentativas (muitas vezes frustradas) de encaixar as tarefas do costume quando ele assim o permite. 
Aos poucos as coisas vão encontrando uma nova normalidade e o meu coração enche-se de gratidão por tudo o que tenho. Ser mãe é provavelmente o meu papel mais difícil até hoje, mas acredito que será muito compensador.

E assim em jeito de balanço, depois dos dramas iniciais, já consegui ver os três últimos episódios do Game of Thrones, ainda que muito espaçados, já consegui ler todo o feed do Bloglovin, li um pequeno capítulo do livro que deixei pendurado antes do puto nascer, e já folheei meio catálogo do IKEA. Portanto para mim o saldo é super positivo. Nova normalidade, de facto.

Em breve espero contar-vos a história do meu parto, que, não sendo propriamente horrível (vá, por acaso até foi um bocadinho horrível), não foi nenhum passeio no parque e até merece um post só seu. Darei novidades em breve. Até lá, ando mais activa no facebook do blog e por vezes no instagram. Vemo-nos por aí malta!

sábado, 5 de agosto de 2017

Os meus pés são feios*

* ou uma pequena reflexão sobre o corpo, auto-estima e mudanças.

Toda a família do meu pai tem joanetes nos pés. Na família da minha mãe temos uma estranha especificidade em que temos o segundo e terceiro dedos unidos na base. A genética está contra mim, mas não é só isso.
Pratiquei desportos em miúda, e a patinagem artística em especial lixou-mos ainda mais, umas vez que era obrigada a apertar os pés nas botas dos patins, com dois ou três pares de meias, que acentuaram a tendência para joanetes e calos nos dedos dos pés (que por serem tão longos já parecem amendoins) e que não há pedicure que safe. Por fim juntamos a isso uma característica só minha, de nas laterais exteriores dos meus pés, a estrutura óssea espetar-se algures ali a meio, coisa que por vezes me causa desequilíbrios absolutamente parvos quando ando de - pasme-se!- havaianas. Isto para além de alargar o meu pé, não me permitir usar alguns modelos de sapatos, e ser feio, claro.

Há pouco encontrei esta foto no meu instagram pessoal, de há dois anos atrás. E adorei revê-los.
Estes são os meus pés, aqueles que contam histórias de família e a minha história, no geral. Os meus amendoins, secos e com as veias sobressaídas, em vez do pé de Shrek que desenvolvi agora no final da gravidez. E digo-vos, estou ansiosa de tê-los assim novamente, feios como eram. Já não me lembrava muito bem do aspecto do "antes", e tenho pensado neles, tenho saudades de senti-los fortes e sem dores dos inchaços constantes. 
Eu sei que os meus pés são tudo menos bonitos, mas não consigo de deixar de fazer tudo para que estejam confortáveis. Mesmo sendo mais feios agora, eles andam na areia, ou enfiados em chinelas, com todos os defeitos bem visíveis para quem quiser ver. Por vezes falhou a pedicure, mas nem por isso deixei de ir à praia, usar sandálias, apanhar ar quando precisavam. 
E o mesmo se aplica a outras partes do corpo. Usei bikinis mesmo no auge do peso porque gosto de bronzear o máximo de pele possível, t-shirts com os cotovelos secos porque estava calor, saias com depilação por fazer (vá, saias compridas, mas é sempre um "risco"). 
Não quero dizer com isto que sou a favor de uma pessoa andar desleixada, mas por vezes temos de largar o controlo de querer estar perfeitas e só sairmos de casa se estivermos impecáveis e sem falhas. Quero estar arranjada e cuidada, mas não quero depender sempre disso. Quero sair um dia sem maquilhagem e não ficar incomodada por isso.

Compreendo perfeitamente todos os complexos que possamos ter, eu tenho imensos, mas não percebo como é que há pessoas que se deixam dominar por eles. A ponto de deixar de fazer coisas, de não sair de casa, de não usar peças de roupa específicas. Gostaria que ninguém se sentisse assim, gostaria que todos encarassem os seus defeitos de estimação como eu encaro os meus pés (eu incluída nos outros defeitos mais difíceis de aceitar). Sim, são toscos, feios, imperfeitos. Mas são fortes, suportam o meu peso, calçam os sapatos da minha vaidade, consigo apanhar coisas com eles porque os meus dedos têm imensa mobilidade, calço-os e pratico desporto com eles, fotografo-os em cenários descontraídos (olá clichés de Verão) e demonstram um estado de espírito pacífico. E isto são só os pés. 
E se fizéssemos este exercício, de procurar os benefícios nas partes que menos gostamos no nosso corpo? E se nos desligássemos da absurda necessidade de tentar parecer bem? Aposto que quem me vê por aí nem repara nos meus pés feios. E se repararem... não vem mal ao mundo. Sou mesmo mais feliz assim...